sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Ingresso é 2

No início deste campeonato brasileiro os apaixonados pelo futebol e os que acompanham os noticiários esportivos se impressionaram com um grupo de torcedores de Flamengo e Botafogo que se uniram no dia do clássico, válido pela 9ª rodada, para fazer um protesto bem humorado, questionando as autoridades e os dirigentes sobre os valores dos ingressos no novo Maracanã. Esses torcedores também acenavam sobre a tristeza que muitos sentiam em relação ao fim da “geral” no estádio e da elitização da torcida, tratada pela mídia naquela semana, quando o consórcio do Maraca enumerou uma lista de novos comportamentos no agora estádio Mário FIFA Filho.

Torcidas de Bota e Fla protestaram com terno e gravata antes de jogo no Maracanã - Pedro Ivo Almeida/UOL

Naquela ocasião, a persona mais non grata do jornalismo esportivo, o britânico Tim Vickery, no programa Redação Sportv, surpreendentemente disse algo interessante, apesar do trocadilho “level easy”. Para ele a atitude dos torcedores não foi de tirar o chapeu e sim de tirar cartola, fazendo referência à cartolagem que insiste em judiar do esporte que é nossa paixão. Com ingressos variando entre R$ 100,00 e R$ 400,00, o público carioca se uniu e deixou seu recado contra essa onda de embranquecimento da torcida.

No jogo despedida de Neymar do Santos, pela primeira rodada do Brasileirão 2013, a diretoria alvinegra praiana resolveu acatar uma ação de marketing e mandar seu jogo contra o Flamengo em Brasília, visto que na capital do DF um grande número de rubronegros com elevado poder aquisitivo acompanhariam a partida no novo Mané Garrincha. Se considerarmos os números friamente, como em uma corporação, a ação deu certo. A terceirização da realização do evento para uma empresa do ramo rendeu quase 1 milhão de reais líquidos ao Santos F. C., mais do que se mandasse o jogo na Vila Belmiro com renda integral. Entretanto, o total de renda naquele jogo foi o recorde brasileiro até então. Cerca de R$ 7 milhões de reais foi o valor arrecadado pela realizadora do evento. Essas cifras, se verdadeiras, são simplesmente mais que o dobro de qualquer jogo de casa cheia do campeão da Libertadores 2012.  Ora, a perspicácia dos empresários do ramo de eventos foi inegável, ao enxergar um novo filão – o público brasiliense.

Voltando ao mundo real, a torcida brasileira continua maltratada e vítima dos descasos da já citada cartolagem e também do poder público. Na zona de rebaixamento por várias rodadas, o São Paulo F. C. patinava com seus constantes empates e derrotas e acumulava a incrível marca de 11 jogos sem vitória na competição. Eu, como torcedor e fanático pelas cores do clube, já me sentia incapaz de ajudar o time apenas torcendo e cornetando da poltrona de casa e resolvi me aventurar, como milhares de outros torcedores. Dirigi-me ao Morumbi na fria e chuvosa noite de quarta-feira, 15 de agosto, às 19h30 para o jogo contra o Clube Atlético Paranaense.
Acreditando ser sabotada pela CBF, a diretoria tricolor criticou a entidade, alegando que colocar o jogo naquele horário em uma quarta-feira era praticamente uma proposta de jogar com os portões fechados, já que logisticamente era inviável contar com os torcedores – o  deslocamento no horário de pico em uma metrópole como São Paulo é lastimável. Acabei tendo sorte ao descer na estação Butantã do Metrô e me encaixar em um ônibus “lotadasso” (sorte, pois os outros ônibus nem paravam na Av. Francisco Morato, principal via de acesso ao estádio). Na entrada do jogo, mais surpresa: em fila, na chuva, com o jogo já em andamento, torcedores assistiam apenas dois policiais militares fazerem a revista. Talvez não contassem com o “incômodo sãopaulino” e sua consequente migração para o local do jogo. De qualquer forma, não estavam preparados para nos receber. Os mais de 25 mil torcedores surpreenderam naquela noite de empate no placar. Surpreenderam mais ainda ao comparecer num total de 55 mil pagantes no domingo seguinte para, finalmente, contra o Fluminense quebrar a sequência sem vitórias – 2 x 1 para o tricolor (paulista).

Primeira vitória são-paulina fortalece bom ambiente de Autuori  

Em plena recuperação, o São Paulo desconhece a própria torcida, acostumada a ser acusada de ir ao estádio apenas quando o clube está bem. Senti-me muito orgulhoso de sair de casa para empurrar o time a sair do momento delicado (aposto que os outros milhares também). Mas é óbvio que as rivalidades entre torcedores acabam ofuscando certos fatos. Em uma ação com misto de desespero e populismo, o coronel Juvenal Juvêncio anunciou uma promoção até o final do campeonato, com ingressos a R$ 2,oo para sócios torcedores e R$ 10,00 para não-sócios. Por isso, ouvi de muitos torcedores de outros clubes a seguinte indignação: -também, com ingressos a dois reais! Do torcedor rival já se esperava esse tipo de reação, pois com R$ 2,00 não se compra sequer um espetinho na entrada do estádio. Uma situação muito desanimadora é ver torcedores disfarçados de jornalistas fazerem o mesmo comentário em seus diários escritos e também nos televisivos.
A torcida venceu dificuldades muito maiores que o valor do ingresso nessa fase do clube. A própria ala dos sócios-torcedores estava vazia, apesar da promoção. Compareceu o torcedor que não queria ver seu time rebaixado.


Independentemente do time, da torcida ou da ação de marketing, o caso dos ingressos para a torcida a baixo custo é algo a se pensar com muito cuidado. A contradição da crítica gratuita é algo extremamente irritante. O mesmo “jornalismo” (com aspas reluzentes) que apoia o protesto de torcedores de Fla e Bota apresenta seu tom sarcástico ao desaprovar ingressos acessíveis a outro grupo de torcedores. Qual é a nossa reivindicação, então!?

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Futebol fantasia

Essa noite eu tive um sonho. Era final de campeonato e não havia pessoas nas ruas. As procurava, casa por casa, e nelas também pessoas não havia. Todos os televisores desligados, embora todas as bandeiras enfeitassem janelas. Era uma cidade colorida de silêncio, verdes, vermelhos, pretos e brancos. Havia também amarelos, rosas, lilases e demais cores que compunham um arco íris.
O mundo estava suspenso e não havia carros, semáforos ou transeuntes. Não havia buzinaços, apitaços, nem tão pouco cornetas ou chocalhos. Batucada se ouvia ao longe, um longe distante, quase mudo. Os templos vazios de pregadores. As praças vazias de mendigos, prostitutas, taxistas. Não havia professores nos colégios. Operários nas fábricas. Hipócritas nas bolsas de valores. Tão pouco havia redes de internet, de pesca. Todas as redes guardadas para a servir à meta do grande jogo.
Todos, mulheres, crianças. Jovens, velhos, senhores distintos e indistintos. Prostitutas, traficantes e policiais. Pregadores, professores e predadores. Todos ocupavam seu assento no mesmo estádio, aos milhões de montes, para assistir ao jogo. E o som da batucada, pruntumbumpaticumbum, baticumbava alto, agora.
No meu sonho, não havia ingressos de 100 ou 1000 reais. Ingressos não havia para o jogo. Todos se acomodavam nos melhores lugares do estádio, em pé ou sentado como preferissem. Nos entornos não havia carros de TV barulhentos, porque não havia necessidade de um homem dizendo aos torcedores o que podiam ver com as mãos e os olhos. Não havia placas de publicidade. Não havia carros de ambulantes. Embora, fosse possível notar que todos comiam lanche de pernil, feijão tropeiro, regado a baldes de cerveja. Não havia grades que separassem os rivais, porque rivais não havia.
Não havia jornalistas cercando protagonistas, porque nesta final não havia protagonistas. Não havia, no jogo, brigas, discussões ou xingamentos aos jogadores, como se eles tivessem a obrigação de acertar em cada lance. O médico que assistia ao jogo, aceitava o erro, pensava nos erros que tantas vezes cometia. O professor, errado de nascença, não xingava o erro de passe do camisa 9, porque ele mesmo não acertava todas as contas que fazia. Até mesmo o treinador, que lembrando de seus erros de escalação ou de posicionamento, resolvera aceitar os erros de quem dirigia.
Nos cânticos das torcidas, apenas músicas que narravam o seu amor e sua história, em acordes regidos por maestros populares da música samba da sua terra.
Gritos de protesto também não havia.
Havia gol, magia, rito. A partida acabou, pelo que lembro, 4 a 3. Os vencedores comemoravam sua vitória, como eufóricos por tamanha conquista. Os derrotados saiam cumpridores de sua missão, sabendo que a felicidade é uma coisa assim, tão maior, quanto mais acumuladas frustrações. Esperavam também eufóricos, os dias em que venceriam tão honroso adversário.
Os torcedores, entendendo o ensejo, iam pra casa cantando sua glória ou seu sofrimento. Sabedores de que voltariam, poderiam voltar a lugar tão mágico, sem catracas, cambistas, emissoras de TV. Não havendo intermediários midiáticos com interesses escusos, poderiam voltar ao palco de tão honroso teatro, celebrando suas bandeiras e identidades.
Os homossexuais se beijavam. As mulheres chutavam latas imitando os lances que viam. Os homens, cordialmente, abriam passagem para a comemoração dos vitoriosos e para o ritual fúnebre, não menos importante, dos derrotados. Era assim, esse meu sonho. O futebol, um jogo de crianças, num empinar de pipas despretensioso no céu verde dos gramados.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Guerreiro: o centroavante e a bola

Crédito da Imagem: esporte.uol.com.br

Aos domingos, desde que sou pequeno, com maior ou menor frequência vou ao Pacaembu. Antigamente, era meu pai que me vestia com um uniforme do Corinthians, me colocava no seu chevette (marrom primeiro, depois vermelho) e íamos ver o Corinthians. Das primeiras vezes, me lembro pouco do time e como criança me atentava na torcida. Do time, lembro de fragmentos de imagens, dos cabelos compridos do Tupãzinho e da enorme, pra mim criança pequena, cabeça do Viola. E eu adorava o Viola. Quando cresci, fui entender que ele era um excelente centroavante, talvez um dos maiores que vi jogar. Técnico com a bola nos pés, ágil com a cabeça e de um posicionamento instintivo impressionante. 
De uns anos pra cá, cresci e me pai virou meu filho. Invertemos os papéis. Compro a camiseta, peço que vista, compro os ingressos, o coloco no carro, e apesar de morar em Campinas, vou até Santo André e de lá saímos até o Pacaembu. Recentemente, ganhamos uma companheira, a minha, em nossa empreitada e vamos ao estádio assistir o nosso Corinthians. Cresci e presto mais atenção ao jogo. Sempre acompanhado das mãos atadas de minha companheira, num ritual sagrado para que o time vença, seja um rival, seja a União Barbarense. E, também, dos comentários de meu pai sobre a postura deste ou daquele jogado.
Numa das últimas vezes, ele me falava de como o Paolo Guerrero era um atacante clássico e classudo. Pronto. Logo me recordei do Viola e pensei em dizer algumas linhas sobre o que vejo no campo, quando olho do meu Canto na Arquibancada e presto a atenção no seu jeito de conduzir e levar a bola. Foi assim, que depois de 20 anos, voltei a me encantar por outro centroavante (?). Poderia falar de sua atitude no Mundial Inter Clubes, em que pra mim, ele foi o melhor jogador do Corinthians. Não perdeu uma dividida, dominava a bola, passava com maestria, conduzia o ataque calmamente, friamente, como se previsse cada movimento a ser feito em direção ao gol. Mas quero falar de coisas mais cotidianas e de momentos menos gloriosos. Destes, muitos já falaram. 
Guerrero, peruano simpático e agradabilíssimo quando comparado às malas que surgem no futebol brasileiro, é um atacante tradicional. Domina a bola no peito e tenho a sensação que ela se sente abraçando o pai, escorre no seu peito, acaricia docilmente sua pele e decide descansar no seu pé. Em geral, ele prende a bola, usa o corpo como uma capa protetora, como um pai protegendo sua cria. Toca sutilmente a orelha da bola, simula uma dança ancestral, somente conhecida pelos descendentes diretos dos deuses incas. Engana um marcador e a coloca com doçura no pé de um companheiro. De repente desaparece e se apresenta a frente, recebe a filha de volta, a apara com uma sutileza, a beija com a chapa do pé e a conduz grudada, junto ao pé. E assim vai, ritualmente em direção a linha adversária. 
Quando pelo alto, salta e parece mover-se como se por um instante o futuro parecesse óbvio, e com a calma dos adivinhas, escolha o lado em que a colocará. Por vezes, o futuro se equivoca e lhe prega uma peça. O que em nada lhe desespera. Elegantemente, se reposiciona e repete o ritual. Bola quadrada arredondada no peito, a modela, a beija, a passa, some, reaparece, ginga e bate o pé. Em direção à linha dos adversários. Impressionantemente, como numa dança antiga que se faz e se refaz todas as vezes em que se torna o protagonista de um momento da partida. 
Guerrero é quase que um predestinado a jogar no Corinthians. Parece um enviado do outro Guerreiro, o São Jorge, que protege todo corinthiano. São Jorge, o Guerreiro, o colocou no Pq. São Jorge para proteger a personagem principal do jogo, a bola. Guerrero, com sua capa e sua lança, é Ogum em campo. E, no fim do jogo, meu pai diz, só via o Pelé matar a bola desse jeito, e minha companheira, esse Guerrero..., em um doce suspiro de quem vê pra além do jogo. Se um dia cuidar de minha filha com a classe, ternura e estilo com que ele trata a bola, serei o pai que desejo.