No início
deste campeonato brasileiro os apaixonados pelo futebol e os que acompanham os
noticiários esportivos se impressionaram com um grupo de torcedores de Flamengo
e Botafogo que se uniram no dia do clássico, válido pela 9ª rodada, para fazer
um protesto bem humorado, questionando as autoridades e os dirigentes sobre os
valores dos ingressos no novo Maracanã. Esses torcedores também acenavam sobre
a tristeza que muitos sentiam em relação ao fim da “geral” no estádio e da
elitização da torcida, tratada pela mídia naquela semana, quando o consórcio do
Maraca enumerou uma lista de novos comportamentos no agora estádio Mário FIFA
Filho.
Torcidas de Bota e Fla protestaram com terno e gravata antes de jogo no Maracanã - Pedro Ivo Almeida/UOL
Naquela
ocasião, a persona mais non grata do jornalismo esportivo, o
britânico Tim Vickery, no programa Redação Sportv, surpreendentemente disse
algo interessante, apesar do trocadilho “level easy”. Para ele a atitude dos
torcedores não foi de tirar o chapeu e sim de tirar cartola, fazendo referência
à cartolagem que insiste em judiar do esporte que é nossa paixão. Com ingressos
variando entre R$ 100,00 e R$ 400,00, o público carioca se uniu e deixou seu
recado contra essa onda de embranquecimento da torcida.
No jogo
despedida de Neymar do Santos, pela primeira rodada do Brasileirão 2013, a
diretoria alvinegra praiana resolveu acatar uma ação de marketing e mandar seu
jogo contra o Flamengo em Brasília, visto que na capital do DF um grande número
de rubronegros com elevado poder aquisitivo acompanhariam a partida no novo
Mané Garrincha. Se considerarmos os números friamente, como em uma corporação,
a ação deu certo. A terceirização da realização do evento para uma empresa do
ramo rendeu quase 1 milhão de reais líquidos ao Santos F. C., mais do que se
mandasse o jogo na Vila Belmiro com renda integral. Entretanto, o total de
renda naquele jogo foi o recorde brasileiro até então. Cerca de R$ 7 milhões de
reais foi o valor arrecadado pela realizadora do evento. Essas cifras, se
verdadeiras, são simplesmente mais que o dobro de qualquer jogo de casa cheia
do campeão da Libertadores 2012. Ora, a
perspicácia dos empresários do ramo de eventos foi inegável, ao enxergar um
novo filão – o público brasiliense.
Voltando ao
mundo real, a torcida brasileira continua maltratada e vítima dos descasos da
já citada cartolagem e também do poder público. Na zona de rebaixamento por
várias rodadas, o São Paulo F. C. patinava com seus constantes empates e
derrotas e acumulava a incrível marca de 11 jogos sem vitória na competição.
Eu, como torcedor e fanático pelas cores do clube, já me sentia incapaz de
ajudar o time apenas torcendo e cornetando da poltrona de casa e resolvi me
aventurar, como milhares de outros torcedores. Dirigi-me ao Morumbi na fria
e chuvosa noite de quarta-feira, 15 de agosto, às 19h30 para o jogo contra o
Clube Atlético Paranaense.
Acreditando
ser sabotada pela CBF, a diretoria tricolor criticou a entidade, alegando que
colocar o jogo naquele horário em uma quarta-feira era praticamente uma
proposta de jogar com os portões fechados, já que logisticamente era inviável
contar com os torcedores – o deslocamento no horário de pico em uma
metrópole como São Paulo é lastimável. Acabei tendo sorte ao descer na estação
Butantã do Metrô e me encaixar em um ônibus “lotadasso” (sorte, pois os outros
ônibus nem paravam na Av. Francisco Morato, principal via de acesso ao
estádio). Na entrada do jogo, mais surpresa: em fila, na chuva, com o jogo já
em andamento, torcedores assistiam apenas dois policiais militares fazerem a
revista. Talvez não contassem com o “incômodo sãopaulino” e sua consequente
migração para o local do jogo. De qualquer forma, não estavam preparados para
nos receber. Os mais de 25 mil torcedores surpreenderam naquela noite de empate
no placar. Surpreenderam mais ainda ao comparecer num total de 55 mil pagantes
no domingo seguinte para, finalmente, contra o Fluminense quebrar a sequência
sem vitórias – 2 x 1 para o tricolor (paulista).
Primeira vitória são-paulina fortalece bom ambiente de Autuori 
Em plena
recuperação, o São Paulo desconhece a própria torcida, acostumada a ser acusada
de ir ao estádio apenas quando o clube está bem. Senti-me muito orgulhoso de
sair de casa para empurrar o time a sair do momento delicado (aposto que os
outros milhares também). Mas é óbvio que as rivalidades entre torcedores acabam
ofuscando certos fatos. Em uma ação com misto de desespero e populismo, o
coronel Juvenal Juvêncio anunciou uma promoção até o final do campeonato, com
ingressos a R$ 2,oo para sócios torcedores e R$ 10,00 para não-sócios. Por
isso, ouvi de muitos torcedores de outros clubes a seguinte indignação: -também, com ingressos a dois reais! Do
torcedor rival já se esperava esse tipo de reação, pois com R$ 2,00 não se
compra sequer um espetinho na entrada do estádio. Uma situação muito
desanimadora é ver torcedores disfarçados de jornalistas fazerem o mesmo
comentário em seus diários escritos e também nos televisivos.
A torcida
venceu dificuldades muito maiores que o valor do ingresso nessa fase do clube. A
própria ala dos sócios-torcedores estava vazia, apesar da promoção. Compareceu
o torcedor que não queria ver seu time rebaixado.
Independentemente
do time, da torcida ou da ação de marketing, o caso dos ingressos para a torcida a baixo custo é algo a se pensar
com muito cuidado. A contradição da crítica gratuita é algo extremamente
irritante. O mesmo “jornalismo” (com aspas reluzentes) que apoia o protesto de torcedores
de Fla e Bota apresenta seu tom sarcástico ao desaprovar ingressos acessíveis
a outro grupo de torcedores. Qual é a nossa reivindicação, então!?

