O controle do Tempo e o jogo
Francisco Rebolo - Futebol (1936)
Quero me dedicar agora a ilustrar o que
Marx diria sobre os artifícios em torno do Tempo e o impacto que o controle do
tempo tem na nossa percepção do jogo. Ainda no Capítulo 8, dedicado a Jornada
de Trabalho, Marx mostra que os capitalistas tentam a qualquer custo criar
artifícios para controlar o tempo de trabalho de seus funcionários. Esta
percepção é importantíssima, porque ao controlar o tempo, o capitalista exercer
o controle sobre a subjetividade do trabalhador. Para muitos filósofos, nos
quais se inclui Marx, é o Trabalho um elemento essencial a construção da nossa
humanidade. Passamos mais tempo trabalhando que fazendo qualquer outra
atividade.
Quando alguém nos faz a pergunta sobre
quem somos, normalmente respondemos dizendo o que fazemos enquanto
profissionais. Nos confundimos entre o que é ser alguém e a atividade primeira
que fazemos no mundo. Para Marx, ao trabalhar, o homem modifica as coisas
exteriores e modifica a si próprio. Aqui surge o conceito de Alienação. Ao
trabalhar, somos o nosso trabalho, mas se nosso trabalho é repetitivo e
extenuante, não faz sentido internamente, entramos em crise, sofremos,
procuramos outras coisas para fazer e etc. Há uma relação profunda entre
trabalhar e ser alguém. Isso é inegável.
Um ponto dessa ideia que me salta aos
olhos é o fato de que cada vez mais somos cobrados pela eficiência no nosso
cotidiano. Eficiência é basicamente o quanto ajustamos nossa atividade dentro
de um tempo, para extrair dela o máximo (melhores) de resultados possíveis. As
consequências dessa cobrança na sociedade atual é que quando estamos fora dos
locais de trabalho, nos sentimos perdidos. Não sabemos como usar o tempo e nos
sentimos como vagabundos por não sermos naquele momento eficientes. Isso
significa que tornamos parte da nossa existência inteira, a parte que deveria
se relacionar somente com o mundo do trabalho. Em outras palavras, absorvemos a
percepção do Tempo de trabalho (tempo fundamental ao lucro e a produção de
Mais-Valor) como o guia de nosso tempo nas demais esferas de atividade.
O que isso tem que ver com o Futebol, me
perguntaria entusiasmado um de nossos dois leitores. Ora, assim como nas demais
atividades laborais, os jogadores são cobrados dessa mesma eficiência. São
cobrados a dar o máximo de suas condições humanas no tempo em que exercem a sua
atividade. São levados ao limite da competição. São forçados a explorar o
máximo de sua força física e intelectual para conseguir a vitória ou um empate.
São instigados a se superar.
O que acontece é que o futebol não é
alheio ao mundo. O futebol é parte da sociedade e carrega de modo concentrado
os elementos e valores de nosso tempo. A superação não é uma criação do
capitalismo, superar-se é uma ideia antiga. Mas o capitalismo se apropria dela
e não nos avisa. Projeta este valor modificado para todas as arenas da
experiência humana. E o futebol é parte dessas múltiplas experiências. Minha
hipótese é que ao cobrar maior eficiência, os investidores querem produzir Valor.
Querem que o Tempo do Trabalho seja o máximo possível, seja nos treinos, nos
jogos, nas peças publicitárias. Tudo que envolve o jogo deve ser operado de
modo a produzir o Máximo de Valor
Possível. A consequência é que, de fato, o jogo ficou mais intenso.
Jogadores não param. Correm o tempo todo, disputam todas as bolas, dão mais
carrinho, voam na nuca de adversários com suas testas, tornam os mais velhos,
como Paulo Baier, aberrações.
Antigamente, isso faz parte de minha
hipótese nesse texto, o jogo era mais calmo, porque o Capital ainda não
atingira o patamar de cobrança subjetiva que tem hoje. Os jogos visavam o
lucro, mas um lucro muito menor. Muito menos desenvolvido economicamente.
Agora, em tempos de neoliberalismo e de crise econômica, a busca pelo lucro é mais
intensa. Os jogadores são vítimas desse processo, ainda que não o saibam, e
tornam natural tal cobrança, vendem essa ideia e se impõem condições super-humanas.
Talvez por isso morram mais jogadores a cada ano. Talvez por isso a violência
dos torcedores aumente. Todos queremos, consciente ou inconscientemente, mais
eficiência. E isso exige mais tempo, mais trabalho e mais tensão entre o
Capital e o Trabalho.
O que quero chamar a atenção com estes
dois textos são duas coisas: o Bom Senso é fruto de um momento histórico em que
o Capital se torna mais agressivo em todas as arenas e derrama sua agressividade
nas praças esportivas; o Bom Senso é uma organização de classe, ainda que não
se reconheça enquanto tal; as mudanças na percepção do jogo e do modo como é
aproveitado o tempo nos 90 minutos é fruto do modo como o Tempo é importante
estruturalmente para uma sociedade que visa como objetivo primeiro a Reprodução
do Dinheiro e não do humano ou de outros valores, ainda que se diga o
contrário.
Continuarei frequentando os estádios, apesar
destas contradições. O que Marx diria disso, eu não sei, mas ele se pudesse
teria escolhido o Manchester para torcer, porque entre economias e política, há
de se gastar o meu tempo de ócio como bem entendo, sem eficiências e sem mais
valor algum.
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