terça-feira, 19 de novembro de 2013

O que Marx diria do Bom Senso F.C. - Parte 2

O controle do Tempo e o jogo

Francisco Rebolo - Futebol (1936)

Quero me dedicar agora a ilustrar o que Marx diria sobre os artifícios em torno do Tempo e o impacto que o controle do tempo tem na nossa percepção do jogo. Ainda no Capítulo 8, dedicado a Jornada de Trabalho, Marx mostra que os capitalistas tentam a qualquer custo criar artifícios para controlar o tempo de trabalho de seus funcionários. Esta percepção é importantíssima, porque ao controlar o tempo, o capitalista exercer o controle sobre a subjetividade do trabalhador. Para muitos filósofos, nos quais se inclui Marx, é o Trabalho um elemento essencial a construção da nossa humanidade. Passamos mais tempo trabalhando que fazendo qualquer outra atividade.
Quando alguém nos faz a pergunta sobre quem somos, normalmente respondemos dizendo o que fazemos enquanto profissionais. Nos confundimos entre o que é ser alguém e a atividade primeira que fazemos no mundo. Para Marx, ao trabalhar, o homem modifica as coisas exteriores e modifica a si próprio. Aqui surge o conceito de Alienação. Ao trabalhar, somos o nosso trabalho, mas se nosso trabalho é repetitivo e extenuante, não faz sentido internamente, entramos em crise, sofremos, procuramos outras coisas para fazer e etc. Há uma relação profunda entre trabalhar e ser alguém. Isso é inegável.
Um ponto dessa ideia que me salta aos olhos é o fato de que cada vez mais somos cobrados pela eficiência no nosso cotidiano. Eficiência é basicamente o quanto ajustamos nossa atividade dentro de um tempo, para extrair dela o máximo (melhores) de resultados possíveis. As consequências dessa cobrança na sociedade atual é que quando estamos fora dos locais de trabalho, nos sentimos perdidos. Não sabemos como usar o tempo e nos sentimos como vagabundos por não sermos naquele momento eficientes. Isso significa que tornamos parte da nossa existência inteira, a parte que deveria se relacionar somente com o mundo do trabalho. Em outras palavras, absorvemos a percepção do Tempo de trabalho (tempo fundamental ao lucro e a produção de Mais-Valor) como o guia de nosso tempo nas demais esferas de atividade.
O que isso tem que ver com o Futebol, me perguntaria entusiasmado um de nossos dois leitores. Ora, assim como nas demais atividades laborais, os jogadores são cobrados dessa mesma eficiência. São cobrados a dar o máximo de suas condições humanas no tempo em que exercem a sua atividade. São levados ao limite da competição. São forçados a explorar o máximo de sua força física e intelectual para conseguir a vitória ou um empate. São instigados a se superar.
O que acontece é que o futebol não é alheio ao mundo. O futebol é parte da sociedade e carrega de modo concentrado os elementos e valores de nosso tempo. A superação não é uma criação do capitalismo, superar-se é uma ideia antiga. Mas o capitalismo se apropria dela e não nos avisa. Projeta este valor modificado para todas as arenas da experiência humana. E o futebol é parte dessas múltiplas experiências. Minha hipótese é que ao cobrar maior eficiência, os investidores querem produzir Valor. Querem que o Tempo do Trabalho seja o máximo possível, seja nos treinos, nos jogos, nas peças publicitárias. Tudo que envolve o jogo deve ser operado de modo a produzir o Máximo de Valor Possível. A consequência é que, de fato, o jogo ficou mais intenso. Jogadores não param. Correm o tempo todo, disputam todas as bolas, dão mais carrinho, voam na nuca de adversários com suas testas, tornam os mais velhos, como Paulo Baier, aberrações.
Antigamente, isso faz parte de minha hipótese nesse texto, o jogo era mais calmo, porque o Capital ainda não atingira o patamar de cobrança subjetiva que tem hoje. Os jogos visavam o lucro, mas um lucro muito menor. Muito menos desenvolvido economicamente. Agora, em tempos de neoliberalismo e de crise econômica, a busca pelo lucro é mais intensa. Os jogadores são vítimas desse processo, ainda que não o saibam, e tornam natural tal cobrança, vendem essa ideia e se impõem condições super-humanas. Talvez por isso morram mais jogadores a cada ano. Talvez por isso a violência dos torcedores aumente. Todos queremos, consciente ou inconscientemente, mais eficiência. E isso exige mais tempo, mais trabalho e mais tensão entre o Capital e o Trabalho.
O que quero chamar a atenção com estes dois textos são duas coisas: o Bom Senso é fruto de um momento histórico em que o Capital se torna mais agressivo em todas as arenas e derrama sua agressividade nas praças esportivas; o Bom Senso é uma organização de classe, ainda que não se reconheça enquanto tal; as mudanças na percepção do jogo e do modo como é aproveitado o tempo nos 90 minutos é fruto do modo como o Tempo é importante estruturalmente para uma sociedade que visa como objetivo primeiro a Reprodução do Dinheiro e não do humano ou de outros valores, ainda que se diga o contrário.

Continuarei frequentando os estádios, apesar destas contradições. O que Marx diria disso, eu não sei, mas ele se pudesse teria escolhido o Manchester para torcer, porque entre economias e política, há de se gastar o meu tempo de ócio como bem entendo, sem eficiências e sem mais valor algum. 

O que Marx diria do Bom Senso F.C. - Parte 1

Capital e Trabalho: a política dos boleiros


O texto a seguir será um pouco denso, mas fácil de entender. Pretende mais dizer o que eu diria sobre o Bom Senso F.C., a partir de minhas leituras de Marx (o velho barba da Prússia, cada vez mais lido nos tempos de crise), do que propriamente o que Marx diria. Oxalá Marx pudesse dizer algo. Como não pode, me arrisco por seu texto e o trago pra atualidade futeboleira do Brasil, anil e amargo de nossos dias. A primeira parte deste texto se dedicará a argumentar sobre os dados objetivos econômicos e políticos do movimento. A segunda parte, sobre as questões subjetivas, mais precisamente sobre o modo como o político adentra ao campo de jogo e a nossa percepção dele.

Pois bem, para começo de conversa, o Bom Senso F.C. é um movimento de jogadores profissionais e será entendido nestas linhas como um movimento reivindicatório de um grupo de trabalhadores. Não me importarei se ganham mais ou menos que as demais categorias. Isso não importaria, nem a mim e nem a Marx. O que importaria em sua teoria é o fato de que como profissionais (ou trabalhadores, como queiram) eles vendem sua Força de Trabalho no mercado, para "investidores" (capitalistas) em troca de um salário. A Força de Trabalho, para Marx, é nada mais que o tempo que usam para exercerem sua atividade. Não importa se são apertadores de parafusos ou aparadores de bolas com o corpo. Importa que exercem com suas capacidades psíquicas e físicas certa atividade em troca de salário. Os jogadores vendem seu tempo e os "investidores" (os dirigentes, os clubes, as corporações e todos os atores envolvidos nesse processo) lucram com essa troca. Se lucram com essa troca, movimentam um dinheiro que estaria de outro modo parado, e ao movimentarem esse dinheiro, o transformam em Capital. Trata-se portanto de uma relação entre Trabalho de um lado e Capital do outro. 
No capítulo 8 do Capital, Marx escreve um longo capítulo dedicado a Jornada de Trabalho. Para Marx, a relação entre Trabalho e Capital é antagônica e insolúvel. Ao Capital interessa que o Trabalho seja exercido no máximo de horas possíveis, sem que necessariamente se pague por essas horas. Tal fato decorre de sua percepção sobre o modo como o Valor (não confundir com o preço) é constituído na sociedade. Marx percebe que o Valor é produzido pelo Tempo de Trabalho dispendido na produção de uma Mercadoria. E percebe matematicamente (é uma prova, minha gente) que o lucro não é gerado na troca da coisa Mercadoria, mas sim gerado na troca entre a Força de Trabalho e o Salário. É essencial ao Capital extrair o máximo de horas de trabalho, porque sem isso não há ganho, não há retorno do Dinheiro investido. 
Provamos isso quando percebemos que em momentos de crise, as propostas da sociedade quase sempre giram em torno de se ampliar ou flexibilizar as horas de trabalho, mantendo os salários. Mas se isso não for possível legalmente, o Capital encontra artifícios. Por exemplo, se eu sou pago para exercer uma atividade por 8 horas, recebo em meu contrato de trabalho as 8 horas. Essa é uma troca justa. Mas se meu patrão fizer essa troca, ele não AGREGA Valor e apenas empata o jogo do lucro. Para vencê-lo, ele precisa me pagar pelas 8 horas, mas me fazer produzir como se fossem 12 horas. Agregou com isso, 4 horas de trabalho e isso se transforma em Valor, que vira o preço e que o faz lucrar mais. De modo simplificado, é isso que Marx chama de Mais-Valor ou Mais-Valia.
Voltemos aos exemplos: eu trabalho 8 horas. Mas para trabalhar as 12 horas necessárias pro lucro, basta que ele (meu patrão) me mande e-mails e me ligue fora do horário de trabalho. Ele continua pagando 8 horas, mas aumentou minha carga de trabalho. Os profissionais da administração de empresas (não de humanos) gostam de encontrar artifícios como esses e em tempos de Internet é cada vez mais difícil separar o que é o ESPAÇO do trabalho, de outros ESPAÇOS da vida. Como professor, sei muito bem disso, quando corrijo um milhão de provas fora da sala de aula, que é o meu ESPAÇO de trabalho.
Pois bem, voltando ao Bom Senso F.C., os jogadores se reuniram na tentativa de diminuir o tempo trabalhado. Sentem-se exauridos fisicamente, percebem as desigualdades econômicas entre os atletas da Elite e os demais atletas, reivindicam portanto, menos horas trabalhadas e manutenção dos seus ganhos. O que recebem da outra parte? Recebem um Não! Só podem receber um não, porque Marx tinha razão, a relação entre eles é uma relação inconciliável entre Capital e Trabalho e aos “investidores” não interessa a diminuição da Mais-Valia.
Essa é a Antinomia desta relação. Não sei como ela acabará, mas se Marx pudesse lhes dar um conselho, diria, meus amigos, unam-se, os poderosos do futebol tremerão diante de sua união e serão obrigados a recuar. A vitória ou a derrota do movimento dependerá de ter claro que se trata sim de uma questão política e já antiga, ao contrário, do que alguns jogadores disseram, como o goleiro Rogério Ceni, que defendeu não se tratar de movimento político. Ora, Marx sabe que a Economia só abaixa a crista para a Política e é nessa esfera que devem resolver essa contradição.


A segunda parte deste texto tratará do que Marx diria sobre o modo como o TEMPO se relaciona com o jogo dentro das quatro linhas e sobre os artifícios dos donos do jogo para aumentarem os seus lucros. Estas coisas não parecem ter relação, mas estão profundamente relacionadas. 
Um dos protestos do grupo: jovempan.uol.com.br

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Não é fraco, é fraquíssimo (autor santista desconhecido)

Nesse domingo, 03 de novembro de 2013, tive a felicidade de poder assistir ao jogo do grandessíssimo Santos Futebol Clube.
Sol quente. Vila lotada. Ingressos caríssimos (o mais barato 40 reais a inteira). E sono. Muito sono.
Não, o sono não ocorreu na prévia do jogo. Aliás, encontrei torcedores que chutaram (pelo menos os torcedores chutam) placares de torcedores: 4x1; 5x1; 3x1...sempre para o Santos. E esse último placar foi o mais modesto dos que ouvi.
Deixando a cachaça de lado – convenhamos que torcer por um 5x1 contra o Cruzeiro na atual situação alvinegra é no mínimo....cachaça – olhemos o jogo. Melhor, analisemos o Santos.
Não é fraco. É fraquíssimo.
Proponho uma análise mais detalhada...jogador por jogador, cérebro por cérebro.
Aranha: Não é possível um goleiro ser bom se ele tem apelido. Aliás, raros são os exemplos de apelidados que “deram certo”: Pelé, Tostão, Garrincha... Mas nenhum Aranha. Sim, nenhum Aranha. Mas para não parecer implicância apenas, pensemos em suas capacidades: alto, boa envergadura, ótimo alcance de bolas, lançamentos longos e boa saída em cruzamentos. No entanto, insiste em APENAS chutar a bola para o ataque na esperança de que W. José vença no combate corpo-a-corpo com Dedé (especificamente desse jogo contra o Cruzeiro). Difícil é entender por que W. José ganharia de uns dos zagueiros da seleção.
Seguindo o fluxo, W. José: jovem, alto, relativamente forte, chuta bem e sabe fazer o pivô. No entanto, resumiu-se em bolas perdidas para Dedé. Acredito que jogar em cima de Dedé não foi uma boa escolha.
Guardarei as pérolas santistas para o fim dessa crônica futebolesca. Chegaremos lá em breve.
Cicinho: corre, corre, corre e ....corre.
Edu Dracena e Gustavo Henrique: o problema não é a zaga.
Mena: razoável em todos os sentidos, mas ainda assim, no ataque, o vovô Léo é melhor. Pasmem!!!
Cícero: sim, pularemos o gênio Alison. Bem, o Cícero sabe jogar, organiza o meio campo, mas não joga sozinho.
Arouca: nitidamente jogando fora de posição está perdido quanto à sua função na equipe. Corre errado, tanto na defesa quanto no ataque. Marca mal na defesa porque chega cansado. Ataca mal no fronte porque chega cansado.
Montillo: de longe não vale o que ganha, mas – também de longe – não tem um ser pensante ao seu lado.
PRONTO!!! Chegamos aos gênios da bola!!!!
Comecemos com  Everton Costa: péssimo!!! PÉSSIMO! Tem dificuldade no domínio de bola, toca muito mal a bola, cai com facilidade, tem uma visão muito reduzida do jogo, não sabe marcar e não sabe criar jogadas. De duas uma: ou está fora de posição (me pergunto qual seria sua posição????), ou é muito ruim mesmo!!!
Alison: cão de guarda, segurança, Pitt Bull, carniceiro, sarrafeiro, etc etc.. Não! Na verdade (com olhos da arquibancada) é o único que corre no time. Mas sinto que o torcedor se engana com o correr. Ele está sempre cansado, sempre chega atrasado nas jogadas, erra passes de 2 metros, tem domínio de bola negativo, joga de cabeça baixa e, via de regra, marca ninguém.
Acredito que o sistema de jogo implantado (supondo a implantação de algo nesse time) por Claudinei tenha em Alison o jogador que cobre os espaços quando a marcação é feita individualmente. No entanto, o jogador que sobrou (afinal, se Alison sobra no Santos outro deve sobrar no Cruzeiro) foi sempre Dedé. Sim, o mesmo Dedé que não perdeu nenhuma bola no jogo, que “marcou” W. José (acho que ele se marca sozinho ou brigou com a natureza), e que deu lançamentos de Gerson o jogo todo.
Chegamos à cereja no bolo, à bandeira de chegada, à contagem regressiva, ao cigarro depois do prazer: Claudinei de Oliveira.
Durante muito tempo venho defendendo o treinador do Santos. Mas tudo tem limite. É impossível o Santos continuar jogando com medo de ganhar. É impossível o Santos continuar jogando pra perder de pouco ou empatar. É impossível o treinador do Santos não perceber essas simples características dos jogadores citados acima. É impossível que, treinando todo santo dia, não haja uma melhora. É impossível!
Temos um treinador com pouca mobilidade tática – os jogares tem culpa nisso, e muita, pois não conseguem correr e pensar ao mesmo tempo – e que prefere seu esquema “seguro” à chance de dar brilho ao time.
Outrora escrevi sobre os meninos da Vila. Jovens como Gabriel, Victor Andrade, Alan Santos, Gustavo, etc etc. Reitero agora (publicando): se esses meninos sabem jogar – e sabem – “deixem os meninos jogarem, o Iaiá!!”
O time do Santos está como um militar aposentado: usa a farda pra alguém ter respeito, mas ela tá apertada, desbotando, suja e malpassada. As pessoas respeitam o Santos não pelo que ele é, mas pelo que já foi (até um passado bem recente).

O time, o treinador e os jogadores não são fracos, são fraquíssimos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O Imperador e o jornalismo esportivo

Esse post não vai falar do Adriano Imperador. Mas sim, do Imperador, um outro. Com quem o primeiro mantém muita afinidade, diga-se de passagem. Nos antigos impérios, a figura do Imperador é tida como uma espécie de divindade terrena, que tudo pode e tudo consegue. Esta figura foi usada, já no século XX, pela psicanálise freudiana para metaforizar a parte humana destinada aos desejos. O inconsciente humano seria, nessa leitura, carregado de contradições, ora pautada nos desejos internos, que nos impulsionam à vida, ora pautado em impedimentos internos de ordem moral, que se contraporiam ao desejo. Em palavras bem mais simples: todos temos dois lados que se confrontam dentro da gente, o desejo e a moral.
Expandindo um pouco a ideia, para construir minha linha reflexiva. Se sou um jogador de futebol e desejo comer um quilo de picanha antes de um jogo decisivo (êêê Vaixco da Gama), em geral, em minha mente surge uma barreira que me lembra do jogo e me diz que não devo comer. Se não realizo meu desejo posso me frustrar imediatamente, mas se o realizo e meu time perde, vem uma voz sutil e conhecida de todos nós, que nos repete: eu avisei! Essa é (muito) simplificadamente a teoria freudiana. O ser humano está a mercê de seu desejo e de sua moral, que ora levam a satisfação, breve, passageira e ora a culpa. 
Não é fácil reconhecer essa luta interna nossa de cada dia. São poucos os sujeitos que param, em uma sociedade moderna e veloz, para tecer uma análise desse tipo sobre si próprio. Num mundo hedonista como o nosso, queremos tão logo realizar nossos desejos, para em seguida desejar mais e evitarmos eternamente a frustração. Mas todos, reconhecendo esse lado ou não nos deparamos com essas lutas que se tornam mais ou menos agressivas entre a gente. Não seriam, portanto, os jornalistas, os únicos culpados por não a reconhecerem dentro de si. Mas vale o alerta.
Programas e eventos futebolísticos passam por duas situações em que os desejos dos sujeitos se sobressaem: quando analisam o jogo (presente ou passado) ou quando opinam sobre o futuro do jogo ou do time analisado. Análise é um termo grego que significa quebra ou dissolução. Muito usado na ciência, para designar o procedimento de observação das partes de um todo, no intuito de compreende-lo melhor, jogar luz sobre aspectos deste todo, ou mesmo concluir algo sobre ele. Primeiro se analisa, com algum critério e depois se opina sobre o analisado. Como nas transmissões não se vê uma preocupação analítica metodológica, as opiniões são frágeis, equivocadas e superficiais. Ou visto por outro ângulo, a dinâmica do futebol impede que jornalistas façam análises metódicas e profundas sobre quaisquer de suas partes, bem como consigam algum acerto baseado na lógica ou na razão.
Trata-se, portanto, de um tipo de análise que não passa por uma abordagem metodológica, mas sim por critérios intuitivos. Na maior parte dos acertos de jornalistas, sem que percebam, usam suas experiência e suas noções para atingirem seus darem a sentença. Um exemplo disso é o Neto, que conhecendo como poucos a arte de bater na bola, acerta gols de faltas, vez ou outra, de determinados batedores. Sua experiência o leva ao acerto, o que não torna menos válida a análise. No entanto, a questão é que usando a intuição, o desejo e a moral, gritam muito mais, tornamos as palavras menos controláveis e subjetivizamos a análise.
Nisso não incorreria problemas, se os jornalistas assumissem suas parcialidades e em partes, o seus desejos. Nós torcedores confiaríamos menos neles e nos tornaríamos menos irritáveis às suas atuações. Esses dias Casagrande sentenciou que o São Paulo cairia porque tinha um péssimo time. Caio Ribeiro falou o contrário, concordando que o time tricolor era frágil. Freud diria, que diante dessas opiniões, um deseja que o São Paulo seja rebaixado, enquanto o outro que permaneça na primeirona. Desejos, não análises. Em última instância, todos desejam.
Em suma, quando escuto um jornalista falar sobre qualquer assunto, e no nosso caso, o futebol, penso que todos eles desejam que suas análises sejam verdadeiras. No fundo, mesmo em análises complexas e científicas alguma ponta de desejo sempre escapa. Mas na prática, nossos jornalistas nunca assumem o que sentem, senhores e condutores racionais e sóbrios, últimos sábios das quatro linhas. Jornalistas desejam que as torcidas organizadas acabem, desejam que grandes clubes caiam, desejam que seus clubes de coração sempre sejam os campeões, desejam que os árbitros nunca ou sempre errem, desejam o melhor e o pior futebol do mundo, desejam ganhar mais, desejam e reproduzem, seus desejos, quando não os desejos das instituições que pagam seus salários. Mas nunca assumem, nunca assumem nada. A culpa, amigo ao contrário do desejo, é sempre dos outros, nunca deles. Freudianamente falando. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

(RE)AJA CORAÇÃO!!!!

Não está nada fácil torceu para o meu tricolor neste ano de 2013. A maldição da Sulamericana é infalível. Em 2012 a La. U. sofreu da mesma forma, após ser considerada o melhor time do continente ao final de 2011.
A maior dificuldade de acompanhar o São Paulo neste momento é a discrepância apresentada no discurso da mídia. No domingo, na transmissão da partida contra o Grêmio, enquanto o jogo ainda estava 0 x 0, o trio de ferro composto por Cléber Machado, Walter Casagrande e Caio Ribeiro não se continham ao elogiar a dupla de meias sãopaulinos (pareceria que nunca tinham visto um time tocar a bola de pé em pé). Os elogios duraram até o fatídico gol do chileno Vargas. A partir daí, os destaques do jogo foram a apatia, a falta de atitude, a má pontaria... e em segundo plano o goleiro Dida.


Na quarta-feira passada, o time realmente jogou muito mal, apesar do susto que Luís Fabiano deu na torcida santista logo no início do jogo, que obrigou a grande defesa de Aranha, e da incrível chance desperdiçada pelo "glorioso" Douglas ao final do primeiro tempo. O Santos merecia 2 x 1. Os três gols a zero trouxeram um retrato irreal sobre a diferença entre as equipes. Mais irritante que a chance perdida pelo Douglas e que a escalação promovida pelo Muritri Trabalho, foi a postura da infalível equipe de transmissão da Rede Globo. Na concepção dos "profissionais" da comunicação, o São Paulo está uma draga e precisa mudar tudo; diziam que Ganso e Jadson não se encontram em campo, que o time não tem entrosamento e blá... blá... blá... Esses caras são muito chatos e incoerentes, tornam a tristeza pela má fase ainda mais dolorosa. Tiveram a coragem de dizer que Luís Fabiano está em débito com a torcida, sem se dar conta que havia apenas 5 dias que o colocaram no destaque do Globo Esporte por alcançar uma marca histórica contra a Católica pela Sulamericana - 100 gols pelo SPFC no estádio do Morumbi.

Fico refletindo sobre essa postura e acabo isentando os pobres comentaristas da culpa por sua incoerência. A culpa é do futebol. Apesar de injusta, "a bola pune". Estreando no segundo turno com 3 vitórias seguidas e sem tomar gols, o São Paulo se deu mal contra o Goiás, com um gol de costas e improvável do goleiro Rogério. A quebra da sequência havia abalado pouco o time, pois o futebol apresentado contra o Grêmio no domingo foi realmente de encher os olhos, mas as velhas máximas do esporte são incrivelmente pontuais: em um contra-ataque após a braçada de Kléber dentro da área, gol de cabeça do clube gaúcho. Contra o Santos, tudo contra: fora de casa (com forças a favor do alvinegro praiano), campo molhado, zaga improvisada, marcação implacável do meio santista, gols perdidos e... consequentemente... derrota justa.
A bola pune e os comentaristas comentam.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Ingresso é 2

No início deste campeonato brasileiro os apaixonados pelo futebol e os que acompanham os noticiários esportivos se impressionaram com um grupo de torcedores de Flamengo e Botafogo que se uniram no dia do clássico, válido pela 9ª rodada, para fazer um protesto bem humorado, questionando as autoridades e os dirigentes sobre os valores dos ingressos no novo Maracanã. Esses torcedores também acenavam sobre a tristeza que muitos sentiam em relação ao fim da “geral” no estádio e da elitização da torcida, tratada pela mídia naquela semana, quando o consórcio do Maraca enumerou uma lista de novos comportamentos no agora estádio Mário FIFA Filho.

Torcidas de Bota e Fla protestaram com terno e gravata antes de jogo no Maracanã - Pedro Ivo Almeida/UOL

Naquela ocasião, a persona mais non grata do jornalismo esportivo, o britânico Tim Vickery, no programa Redação Sportv, surpreendentemente disse algo interessante, apesar do trocadilho “level easy”. Para ele a atitude dos torcedores não foi de tirar o chapeu e sim de tirar cartola, fazendo referência à cartolagem que insiste em judiar do esporte que é nossa paixão. Com ingressos variando entre R$ 100,00 e R$ 400,00, o público carioca se uniu e deixou seu recado contra essa onda de embranquecimento da torcida.

No jogo despedida de Neymar do Santos, pela primeira rodada do Brasileirão 2013, a diretoria alvinegra praiana resolveu acatar uma ação de marketing e mandar seu jogo contra o Flamengo em Brasília, visto que na capital do DF um grande número de rubronegros com elevado poder aquisitivo acompanhariam a partida no novo Mané Garrincha. Se considerarmos os números friamente, como em uma corporação, a ação deu certo. A terceirização da realização do evento para uma empresa do ramo rendeu quase 1 milhão de reais líquidos ao Santos F. C., mais do que se mandasse o jogo na Vila Belmiro com renda integral. Entretanto, o total de renda naquele jogo foi o recorde brasileiro até então. Cerca de R$ 7 milhões de reais foi o valor arrecadado pela realizadora do evento. Essas cifras, se verdadeiras, são simplesmente mais que o dobro de qualquer jogo de casa cheia do campeão da Libertadores 2012.  Ora, a perspicácia dos empresários do ramo de eventos foi inegável, ao enxergar um novo filão – o público brasiliense.

Voltando ao mundo real, a torcida brasileira continua maltratada e vítima dos descasos da já citada cartolagem e também do poder público. Na zona de rebaixamento por várias rodadas, o São Paulo F. C. patinava com seus constantes empates e derrotas e acumulava a incrível marca de 11 jogos sem vitória na competição. Eu, como torcedor e fanático pelas cores do clube, já me sentia incapaz de ajudar o time apenas torcendo e cornetando da poltrona de casa e resolvi me aventurar, como milhares de outros torcedores. Dirigi-me ao Morumbi na fria e chuvosa noite de quarta-feira, 15 de agosto, às 19h30 para o jogo contra o Clube Atlético Paranaense.
Acreditando ser sabotada pela CBF, a diretoria tricolor criticou a entidade, alegando que colocar o jogo naquele horário em uma quarta-feira era praticamente uma proposta de jogar com os portões fechados, já que logisticamente era inviável contar com os torcedores – o  deslocamento no horário de pico em uma metrópole como São Paulo é lastimável. Acabei tendo sorte ao descer na estação Butantã do Metrô e me encaixar em um ônibus “lotadasso” (sorte, pois os outros ônibus nem paravam na Av. Francisco Morato, principal via de acesso ao estádio). Na entrada do jogo, mais surpresa: em fila, na chuva, com o jogo já em andamento, torcedores assistiam apenas dois policiais militares fazerem a revista. Talvez não contassem com o “incômodo sãopaulino” e sua consequente migração para o local do jogo. De qualquer forma, não estavam preparados para nos receber. Os mais de 25 mil torcedores surpreenderam naquela noite de empate no placar. Surpreenderam mais ainda ao comparecer num total de 55 mil pagantes no domingo seguinte para, finalmente, contra o Fluminense quebrar a sequência sem vitórias – 2 x 1 para o tricolor (paulista).

Primeira vitória são-paulina fortalece bom ambiente de Autuori  

Em plena recuperação, o São Paulo desconhece a própria torcida, acostumada a ser acusada de ir ao estádio apenas quando o clube está bem. Senti-me muito orgulhoso de sair de casa para empurrar o time a sair do momento delicado (aposto que os outros milhares também). Mas é óbvio que as rivalidades entre torcedores acabam ofuscando certos fatos. Em uma ação com misto de desespero e populismo, o coronel Juvenal Juvêncio anunciou uma promoção até o final do campeonato, com ingressos a R$ 2,oo para sócios torcedores e R$ 10,00 para não-sócios. Por isso, ouvi de muitos torcedores de outros clubes a seguinte indignação: -também, com ingressos a dois reais! Do torcedor rival já se esperava esse tipo de reação, pois com R$ 2,00 não se compra sequer um espetinho na entrada do estádio. Uma situação muito desanimadora é ver torcedores disfarçados de jornalistas fazerem o mesmo comentário em seus diários escritos e também nos televisivos.
A torcida venceu dificuldades muito maiores que o valor do ingresso nessa fase do clube. A própria ala dos sócios-torcedores estava vazia, apesar da promoção. Compareceu o torcedor que não queria ver seu time rebaixado.


Independentemente do time, da torcida ou da ação de marketing, o caso dos ingressos para a torcida a baixo custo é algo a se pensar com muito cuidado. A contradição da crítica gratuita é algo extremamente irritante. O mesmo “jornalismo” (com aspas reluzentes) que apoia o protesto de torcedores de Fla e Bota apresenta seu tom sarcástico ao desaprovar ingressos acessíveis a outro grupo de torcedores. Qual é a nossa reivindicação, então!?

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Futebol fantasia

Essa noite eu tive um sonho. Era final de campeonato e não havia pessoas nas ruas. As procurava, casa por casa, e nelas também pessoas não havia. Todos os televisores desligados, embora todas as bandeiras enfeitassem janelas. Era uma cidade colorida de silêncio, verdes, vermelhos, pretos e brancos. Havia também amarelos, rosas, lilases e demais cores que compunham um arco íris.
O mundo estava suspenso e não havia carros, semáforos ou transeuntes. Não havia buzinaços, apitaços, nem tão pouco cornetas ou chocalhos. Batucada se ouvia ao longe, um longe distante, quase mudo. Os templos vazios de pregadores. As praças vazias de mendigos, prostitutas, taxistas. Não havia professores nos colégios. Operários nas fábricas. Hipócritas nas bolsas de valores. Tão pouco havia redes de internet, de pesca. Todas as redes guardadas para a servir à meta do grande jogo.
Todos, mulheres, crianças. Jovens, velhos, senhores distintos e indistintos. Prostitutas, traficantes e policiais. Pregadores, professores e predadores. Todos ocupavam seu assento no mesmo estádio, aos milhões de montes, para assistir ao jogo. E o som da batucada, pruntumbumpaticumbum, baticumbava alto, agora.
No meu sonho, não havia ingressos de 100 ou 1000 reais. Ingressos não havia para o jogo. Todos se acomodavam nos melhores lugares do estádio, em pé ou sentado como preferissem. Nos entornos não havia carros de TV barulhentos, porque não havia necessidade de um homem dizendo aos torcedores o que podiam ver com as mãos e os olhos. Não havia placas de publicidade. Não havia carros de ambulantes. Embora, fosse possível notar que todos comiam lanche de pernil, feijão tropeiro, regado a baldes de cerveja. Não havia grades que separassem os rivais, porque rivais não havia.
Não havia jornalistas cercando protagonistas, porque nesta final não havia protagonistas. Não havia, no jogo, brigas, discussões ou xingamentos aos jogadores, como se eles tivessem a obrigação de acertar em cada lance. O médico que assistia ao jogo, aceitava o erro, pensava nos erros que tantas vezes cometia. O professor, errado de nascença, não xingava o erro de passe do camisa 9, porque ele mesmo não acertava todas as contas que fazia. Até mesmo o treinador, que lembrando de seus erros de escalação ou de posicionamento, resolvera aceitar os erros de quem dirigia.
Nos cânticos das torcidas, apenas músicas que narravam o seu amor e sua história, em acordes regidos por maestros populares da música samba da sua terra.
Gritos de protesto também não havia.
Havia gol, magia, rito. A partida acabou, pelo que lembro, 4 a 3. Os vencedores comemoravam sua vitória, como eufóricos por tamanha conquista. Os derrotados saiam cumpridores de sua missão, sabendo que a felicidade é uma coisa assim, tão maior, quanto mais acumuladas frustrações. Esperavam também eufóricos, os dias em que venceriam tão honroso adversário.
Os torcedores, entendendo o ensejo, iam pra casa cantando sua glória ou seu sofrimento. Sabedores de que voltariam, poderiam voltar a lugar tão mágico, sem catracas, cambistas, emissoras de TV. Não havendo intermediários midiáticos com interesses escusos, poderiam voltar ao palco de tão honroso teatro, celebrando suas bandeiras e identidades.
Os homossexuais se beijavam. As mulheres chutavam latas imitando os lances que viam. Os homens, cordialmente, abriam passagem para a comemoração dos vitoriosos e para o ritual fúnebre, não menos importante, dos derrotados. Era assim, esse meu sonho. O futebol, um jogo de crianças, num empinar de pipas despretensioso no céu verde dos gramados.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Guerreiro: o centroavante e a bola

Crédito da Imagem: esporte.uol.com.br

Aos domingos, desde que sou pequeno, com maior ou menor frequência vou ao Pacaembu. Antigamente, era meu pai que me vestia com um uniforme do Corinthians, me colocava no seu chevette (marrom primeiro, depois vermelho) e íamos ver o Corinthians. Das primeiras vezes, me lembro pouco do time e como criança me atentava na torcida. Do time, lembro de fragmentos de imagens, dos cabelos compridos do Tupãzinho e da enorme, pra mim criança pequena, cabeça do Viola. E eu adorava o Viola. Quando cresci, fui entender que ele era um excelente centroavante, talvez um dos maiores que vi jogar. Técnico com a bola nos pés, ágil com a cabeça e de um posicionamento instintivo impressionante. 
De uns anos pra cá, cresci e me pai virou meu filho. Invertemos os papéis. Compro a camiseta, peço que vista, compro os ingressos, o coloco no carro, e apesar de morar em Campinas, vou até Santo André e de lá saímos até o Pacaembu. Recentemente, ganhamos uma companheira, a minha, em nossa empreitada e vamos ao estádio assistir o nosso Corinthians. Cresci e presto mais atenção ao jogo. Sempre acompanhado das mãos atadas de minha companheira, num ritual sagrado para que o time vença, seja um rival, seja a União Barbarense. E, também, dos comentários de meu pai sobre a postura deste ou daquele jogado.
Numa das últimas vezes, ele me falava de como o Paolo Guerrero era um atacante clássico e classudo. Pronto. Logo me recordei do Viola e pensei em dizer algumas linhas sobre o que vejo no campo, quando olho do meu Canto na Arquibancada e presto a atenção no seu jeito de conduzir e levar a bola. Foi assim, que depois de 20 anos, voltei a me encantar por outro centroavante (?). Poderia falar de sua atitude no Mundial Inter Clubes, em que pra mim, ele foi o melhor jogador do Corinthians. Não perdeu uma dividida, dominava a bola, passava com maestria, conduzia o ataque calmamente, friamente, como se previsse cada movimento a ser feito em direção ao gol. Mas quero falar de coisas mais cotidianas e de momentos menos gloriosos. Destes, muitos já falaram. 
Guerrero, peruano simpático e agradabilíssimo quando comparado às malas que surgem no futebol brasileiro, é um atacante tradicional. Domina a bola no peito e tenho a sensação que ela se sente abraçando o pai, escorre no seu peito, acaricia docilmente sua pele e decide descansar no seu pé. Em geral, ele prende a bola, usa o corpo como uma capa protetora, como um pai protegendo sua cria. Toca sutilmente a orelha da bola, simula uma dança ancestral, somente conhecida pelos descendentes diretos dos deuses incas. Engana um marcador e a coloca com doçura no pé de um companheiro. De repente desaparece e se apresenta a frente, recebe a filha de volta, a apara com uma sutileza, a beija com a chapa do pé e a conduz grudada, junto ao pé. E assim vai, ritualmente em direção a linha adversária. 
Quando pelo alto, salta e parece mover-se como se por um instante o futuro parecesse óbvio, e com a calma dos adivinhas, escolha o lado em que a colocará. Por vezes, o futuro se equivoca e lhe prega uma peça. O que em nada lhe desespera. Elegantemente, se reposiciona e repete o ritual. Bola quadrada arredondada no peito, a modela, a beija, a passa, some, reaparece, ginga e bate o pé. Em direção à linha dos adversários. Impressionantemente, como numa dança antiga que se faz e se refaz todas as vezes em que se torna o protagonista de um momento da partida. 
Guerrero é quase que um predestinado a jogar no Corinthians. Parece um enviado do outro Guerreiro, o São Jorge, que protege todo corinthiano. São Jorge, o Guerreiro, o colocou no Pq. São Jorge para proteger a personagem principal do jogo, a bola. Guerrero, com sua capa e sua lança, é Ogum em campo. E, no fim do jogo, meu pai diz, só via o Pelé matar a bola desse jeito, e minha companheira, esse Guerrero..., em um doce suspiro de quem vê pra além do jogo. Se um dia cuidar de minha filha com a classe, ternura e estilo com que ele trata a bola, serei o pai que desejo.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Futebol e Malandragem

Uma das maiores incompreensões do jornalismo brasileiro atual é atitude dissimulada de jogadores, que fingem sofrer jogadas, que não aconteceram. Muitas vezes simulam faltas, outras exageram em jogadas simples. A discussão da imprensa sempre gira ao redor de questões morais, num certo extremismo de quem vê as situações como pólos simples. Ou se age de modo correto ou de modo errado. Claro que esse jeito de ver a vida e os fenômenos dela extrapolam o contexto do futebol, tocando outros espaços e outras esferas da existência. Mas, no futebol, fica evidente o julgamento simplório. Atualmente há prêmios em programas esportivos para os jogadores mais mentirosos ou "malandros".



No meu entender, tal discussão se conecta com a lendária figura do malandro. Neymar, por exemplo, é um dos jogadores mais citados como representante do cai-cai. Admira-se sua dissimulação com a bola nos pés. Mas se condena os momentos em que provoca o adversário ou simula movimentos bruscos, quando poderia simplesmente seguir em pé, continuando a jogada. Ou seja, aceita-se a malandragem em um de seus aspectos, mas nega-se os outros, como sinônimos de desonestidade. É mais ou menos como se fosse possível ser bom ou ruim, escolhendo o bem ao mal, em todas as situações. O bem e o mal, o bom e o ruim, veem como se existissem de modo autônomo. Se esquece toda uma área cinzenta entre o bem e o mal, que é o espaço real de existência da vida.

Na maior parte do tempo não somos nem bons, nem ruins. Somos bondosos em nossa ruindade e ruins em nossa bondade. Somos complexos como a vida. E num jogo complexo como o futebol, em que a intuição é quem resolve a maior parte das situações, conseguir optar, o tempo todo, por um extremo ou outro é praticamente impossível. É a partir destas reflexões que penso a figura do malandro ou a malandragem dentro do futebol.

O malandro não é o sujeito que faz maldades pensando em seu próprio bem. A figura de personagens malandros, bandidos ou de párias sociais, em quaisquer sociedades, se apresenta a partir de caracteres dicotômicos. É preciso entender as raízes históricas e sociais de sua formação, para que se explique sua dicotomia. Foram muitos os autores da sociologia, da antropologia ou da ficção literária que trataram o tema. O malandro surge de uma sociedade hierarquizada e violenta. Na impossibilidade de se inserir socialmente, como é o caso do negro e do pardo no fim da escravidão no Brasil, o espaço social destinado a esses personagens passa a ser a vadiagem. Vadiagem não no sentido de uma opção consciente, mas como produto de uma imposição social por parte dos grupos dominantes. Desse modo, em nome da sobrevivência, o malandro age de modo moral negativo, para conseguir sobreviver e se inserir do modo como é possível. Como numa dialética da malandragem.

Não é possível ser malandro pela metade. Se Neymar é do jeito que é com a bola nos pés. O será sem ela. Se enganará os defensores com os pés. Enganará quando não for falta, dissimulará diante do juíz. Fingirá faltas que não sofreu e provocará seus adversários para que percam a cabeça. A malandragem é uma identidade e como tal é fruto das tensões sociais da sociedade que muitas vezes, atravessam o espírito dos que nela se inserem. O futebol brasileiro é recheado de exemplos semelhantes.

Não é Garrincha um dos maiores craques que tivemos? E não é com seus dribles, sua simplicidade macunaímica (nas palavras de José Miguel Wisnik em Veneno Remédio, o futebol e o Brasil, Editora Cia. das Letras, 2008) e sua dissimulação que chegamos a dois títulos mundiais? E também não é com Nilton Santos enganando o juíz num famoso lance, em que faz um penalti, dá dois passos e finge ter feito apenas uma falta fora da área, que vencemos a Espanha em 1962? E não é uma cotovelada de Pelé que quebra o nariz de um uruguaio na copa de 70 que repetimos e exaltamos? E não foi Rivaldo responsável pela expulsão de um turco na primeira partida de 2002? Ora, estes são alguns dos exemplos de malandragem, por vezes esquecido na nossa imprensa que nos sagramos o futebol cinco vezes campeão do mundo.

Macunaíma, personagem de Mário de Andrade, é definido por este como o herói sem nenhum caráter. Herói de nossa gente. O entendimento de que somos um povo sem um caráter (no sentido de sinal que nos distingue) é um dos momentos do pensamento social brasileiro, representado aqui ficcionalmente. Não somos sem caráter, porque somos crápulas. Mas sim, porque formados de uma heterogeneidade cultural. Também somos fruto da exploração mercantilista européia. Durante 500 anos, somos explorados em diferentes níveis e não conseguimos optar por uma via própria de desenvolvimento, senão em função do que nos é imposto de fora.

Uma das características que a exploração portuguesa e inglesa nos deixa é uma sociedade profundamente desigual. E nesta sociedade, a figura do MALANDRO surge como uma necessidade e uma estratégia de sobrevivência. Ano passado, ouvi hipocritamente, o jornalista britânico Tim Vickery, reclamar da malandragem de Émerson Sheik na final contra o Chelsea, no Mundial de Clubes da Fifa. Me irritei. Porque os jornalistas brasileiros concordaram. Apenas esquecem que se a malandragem hoje leva os ingleses à derrota, é porque eles mesmos nos deixaram este legado. E se hoje nos representamos assim no futebol não é por desonestidade ou por desejo de vencer a qualquer custo. Mas porque este é um de nossos caracteres sociais construídos historicamente.

Não aceito a ideia de que somos malandros e de que isso é ruim. Como diria um amigo, não é bom, nem ruim. É tudo que temos e tudo que somos. Que não percamos nossos traços por buscar um padrão de identidade que não é, nem pode ser nosso, a hipocrisia europeia com seus sinais de uma suposta civilidade. Termino esta conversa, prometendo voltar a ela. Deixa a música que resume o que penso: O Malandro, de Chico Buarque, parte de sua peça de mesmo nome.


domingo, 25 de agosto de 2013

Olhares e pés

Como início de conversa, postamos a foto de Thomas Farkas, fotógrafo húngaro, radicado no Brasil e falecido no ano de 2011. Farkas consagrou-se por expor olhares da Era de Ouro do futebol nacional. Abaixo uma bela foto sua de um dos estádios mais charmosos do Brasil: o Pacaembu, na década de 60. É com um olho no campo e outro fora dele que pretendemos apresentar o futebol nas suas múltiplas dimensões.


São dos nossos olhos como espectadores e dos pés de dezenas de sujeitos que esse esporte se constrói. A cena acima inverte o olhar ao colocar o pé dos torcedores no centro do imaginário. É nesse período, que talvez, a torcida de futebol ganhe uma proporção tão fundamental, quanto a dos jogadores. Como espectadores-torcedores e jogadores amadores façamos nossas reverências ao Thomas Farkas como homenagem de quem divulgou e registrou os nossos pés, através de suas lentes.