quarta-feira, 16 de julho de 2014

Mais (do mesmo) sobre os 7 a 1

Este não é um blog de jornalista, que traz informações dos bastidores do futebol e por eles transitam. Este é um blog de torcedores. Ultimamente de um torcedor. Também não tem muitos leitores, os poucos não comentam, mas pelo que tenho lido nos comentários por aí, talvez seja melhor assim. E, justamente por isso tudo, não tenho a pretensão de apontar saídas ou caminhos para o futebol brasileiro. Mas tão somente externar minha opinião de torcedor-leigo, amante do futebol arte. O fim da Copa, por si só, já me gerou uma depressão. Não quero com esse texto acentuá-la, em mim, tão pouco em você, mísero leitor.
Todos hão de concordar que a Copa gerou certas expectativas e as superou, em quase todos os casos. Minha grande expectativa era relacionada à possibilidade de encerrar, em nosso imaginário, a derrota de 50. Convivendo com inúmeros torcedores mais ou menos jovens, percebi que este fato era irrelevante a eles. Ao menos no nível da consciência. Mas para mim esta era a grande questão. Os 7 a 1 sofridos pelo Brasil, de fato, encerraram a questão e a superaram (!!!). De fato, Marx tinha razão e rimos de nós mesmos. Na busca por revisitar a tragédia que fora a derrota do passado, construímos uma presente piada, alimentada pelos infinitos memes na internet e comentários jocosos. É sobre os efeitos desse jogo que quero falar.

CBF
Nos meus posts falo menos sobre futebol e mais sobre o imaginário (este é o termo que eu encontrei, desprovido aqui de qualquer sentido mais profundo) que fazemos e temos sobre o futebol. Penso que torcemos pela Seleção Brasileira, quando na verdade, deveríamos reconhecer que se trata do time da CBF. Não temos música para esta seleção, porque nunca precisamos empurrá-la. Os anos de ouro do futebol brasileiro foram marcados por um jogo que se resolvia na qualidade dos nossos jogadores. Independente se a torcida empurrava ou vaiava. E mesmo nesse tempo, nosso espírito sempre foi mais o de vaiar que o de aplaudir. Desde que se criou essa imagem de futebol-arte (já na Copa de 50, segundo o brilhante relato de Paulo Perdigão em Anatomia de uma derrota), esperamos uma seleção show, que jogue por música. Não lembro de ter visto essa imagem em campo, nem em 94 e 2002 quando fomos campeões. Apenas esporadicamente, em um ou outro jogo.
Esta CBF vive de vender ao mundo este imaginário. Se preocupa tanto em vender este imaginário, que acaba deixando o que importa de lado: o futebol real, a construção e gestão deste. No meio da Copa, em meio ao meu desejo de vitória, inebriado pelos acontecimentos televisivos, vinha lampejos de algo estava errado: o José Maria Marín ergueria o troféu? O Marín? Afastava esse pensamento, convencido de que o mais importante era vencer. Vencer? Esse engodo, de que a CBF representa o Brasil, já estava na hora de acabar. A CBF se representa! Roubou o futebol brasileiro pra ela, o vende pelo mundo sem critérios, em negócios e jogos escusos, usa a nossa paixão (daqueles que a nutrem, independente do período de Copa), e não quer nos dar satisfações? Rá!
Em suma, não é possível viver mais de um imaginário. A seleção do futebol-arte nasceu em 50, cresceu e se reproduziu até 80, conseguiu se manter em pé, com algum vigor até 2002, agonizando desde então até a tarde de 8 de Julho de 2014, quando foi alvejada, em cerimônia sacrificial em BH, com sete bolaços nas redes.

Marketing
Associado à péssima gestão do futebol brasileiro, temos jogadores mais preocupados com a imagem, que com o futebol. Tudo bem, estamos em 2014, a imagem é, muitas vezes, tudo o que resta a economia de mercado, no entanto, que porra é essa de Luciano Huck parar treino para gravar porra de programa? Ah, mano (leitor, não o Menezes), numa boa, isso não é coisa digna. Se vocês são amigos do Luciano Huck, esse playboy que nunca pôs o pé na bola, então não dá pra esperar muita coisa mesmo. Muito sorriso, muita piada, muita raiva na hora do hino e pouca bola.
O compromisso dessa atual geração é em fazer publicidade. Vender produto dos patrocinadores e agradar a gran finada, que pode pagar 200 contos numa camiseta e 800 num ingresso. Menos marketing e mais treino, meu filho. Menos selfie e mais coletividade. Mais Jardim Irene e menos Granja Comary. Mais Várzea e menos Escolinha do Marcelinho Carioca. Por um Marketing às avessas, como fizeram argentinos e alemães, que sabem ganhar dinheiro e defender causas interessantes, nas quais (suponho que) acreditam.
O papo de "dar alegria pro povo" do David Luiz é conversa pra boi dormir. Quem precisava de alegria eram vocês, se fossem do povo, ou se estivessem perto do povão, a teriam. Mas vivem num mundo arrogante, de cabelinhos engomados e roupas de grife, desde os 15 anos, aí é osso, né negada?


Tática

A decisão da Copa metaforizou o confronto entre duas escolas. Chico Buarque, menino bom da peste, escreveu uma crônica em 98 intitulada O moleque e a bola, em que basicamente defende a genial ideia, de que enquanto os europeus dominam o campo de jogo, os brasileiros são os donos da bola. O que é no mínimo genial e pode ser expandido para os latino-americanos, incluso aqui nuestros hermanos. Sempre vencemos pela individualidade, assim como também por ela perdemos. Enquanto os europeus, num futebol de muita aplicação coletiva, se caracterizam pela ocupação dos espaços. Isso pode ser visto no modo como, ausentes de campos de futebol decentes, nossos garotos fazem malabarismos em vielas, ônibus, igrejas, bastando para eles a bola.
No confronto entre colonizador e colonizado, o dono do campo, o primeiro, é o sujeito que racionaliza o tempo e o espaço e desenvolve o capitalismo. Nesta Copa, embora atualizado, ocorreu este confronto. Os alemães donos do espaço e os argentinos, com um único dono da bola, Messi. Ainda que qualquer coisa possa acontecer numa partida de futebol desse nível, os alemães saíram vencedores quando da entrada de um jovem com características semelhantes as nossas. É como se o aviso estivesse dado: se aliarmos tática e individualidade, dificilmente um time sairá derrotado. Em menor escala, os hermanos tiveram muita aplicação tática, mas com um time mais limitado tecnicamente.
Falar que o Parreira e o Felipão são obsoletos é mais uma opinião movida pela raiva da infantil derrota que uma verdade absoluta. Alguma coisa de tática e de futebol moderno eles devem saber. E o futebol, é tão misterioso, que pode ser que tenham feito muita coisa no treino e que o time simplesmente não encaixou, por um ou outro detalhe. Mas é fato que podemos definir tática como a ocupação do espaço, num tempo certo. É jogar sem a bola, manter certa coesão. Movimentar-se de tal modo, que obrigue o adversário ao erro e neste momento, conseguir o gol. O Brasil não fez nada disso. Em nenhum dos jogos. Também não usou a tática em que "o gol é só um detalhe" do professor Parreira, de manter a posse de bola a qualquer custo. Nem mesmo a do contra-ataque. Em todos os jogos, em inúmeras situações, o Brasil parecia o Tumiaru F.C. antigo time de várzea de minha rua, em Santo André, hoje falido, nunca campeão de coisa alguma.

Emoções e sentimentos
Quem sou eu para avaliar as emoções de alguém, se as tenho, dentro de mim, turbulentas, obscuras e quase sempre explosivas. Não sou ninguém. Pensei que se eu mesmo estivesse em campo, não daria conta daquela atmosfera insana. Não quero abordar esse tema, pois acho covarde induzir alguém a pensar que os jogadores, seres humanos, foram covardes. Não acredito nisso. Acredito apenas que os aspectos táticos e técnicos falharam, como falharam, as emoções se descontrolavam. Algo que acontece com todo e qualquer profissional. Todo e qualquer ser humano. O que significa que em tempos de extrema exposição e de uma vida de aparências é fundamental a todos o autoconhecimento e a autorreflexão. 

Caminhos
O que aconteceu a Seleção da CBF é apenas um sintoma maior de problemas mais sérios e profundos do futebol brasileiro. Farei coro a todos que pedem mudanças profundas na administração do futebol, mas quero deixar claro que não concordo com qualquer mudança. Hoje, o Lance! publicou interessante proposta a qual divulgo e com a qual concordo em grande parte, trata-se de um período de mudanças, também concordo com as propostas do Bom Senso F.C. e com o brilhante texto de Flávio Gomes. Apenas acrescento uma reflexão:

- O principal objetivo do jogo é o torcedor. É nele e para ele que tudo deve ser pensado. Ingressos mais baratos já. Acessibilidade garantida às partidas. Melhores jogos. Trato mais humano. Convençam-se, senhores do futebol, a torcida da Copa não sairá de casa para assistir aos jogos, se sair quererá assisti-los sentados, sentados não cantarão, sem cantar o jogo em campo perderá em elementos que transcendem a vencer ou perder. O jogo perderá em elementos ritualísticos e lúdicos que o trouxeram até aqui. 

Não somos o país do futebol

O futebol pode ser um dos lugares em que expressamos nossa nacionalidade (em sentido amplo), no entanto, o futebol não é o mesmo que a identidade nacional, se é que ela existe. No Brasil, o futebol move paixões e inspira multidões, mas não a totalidade do povo. Não façamos dele algo mais importante do que é. Termino este texto com uma frase de uma amiga, que ressoou em minha cabeça durante alguns dias: "No futebol, na política ou na vida: mais tática e menos deslumbramento" (Ana Flávia Marx). 

domingo, 6 de julho de 2014

Seu Zé e suas histórias de 2014

Era a Copa de 2054. Senhor José, também chamado Seu Zé pelos vizinhos, Vô Zé pelos netos, contava suas histórias:

- Copa boa mesmo só vi uma: 2014. Antes dela só marcação. Depois dela, o tal marketing tomou conta e nesse tal de "futebol moderno", só sobrou brucutu. Teve muita goleada e muito jogo bom. A Costa Rica ganhou da Itália, do Uruguai e só não ganhou da Holanda, porque faltou perna. Sei que parece óbvio pra vocês a Costa Rica e a Colômbia serem grandes seleções, mas naqueles tempos...

O futebol havia mudado, os clubes tinham nome de empresas: Corinthians Emirates, Gomes da Costa Santos, Habibs São Paulo. Alguns, outrora grandes, nem existiam mais. O Brasil estava na fila, uma longa e dolorida fila e o amor ao futebol era coisa dos mais velhos.  Além disso, depois do grande bug que ocorrera em 2030, todas as imagens do passado se resumiam nos restos de memória coletiva daqueles que sobreviveram. Seu Zé era um desses. E gostava de falar de um tal de Neymar, que só conheciam pelas palavras do avô e de outros daquela geração. 

- Antes da Copa, a maioria não a queria. Mas éramos o país do futebol. Conforme a Copa passou dos primeiros jogos, se transformou numa catarse coletiva. Quando acabou a primeira fase o Brasil enfrentou uma poderosa seleção chilena. Empatou em 1 a 1 e venceu nos pênaltis. Todos questionaram a pressão sofrida por aqueles garotos. Falavam que o time pipocaria. Expressão da época para aqueles que amarelavam, que sentiam o peso da camisa, ah sei lá como explicar isso pra vocês... Da euforia de antes da Copa, em que seríamos os campeões, tomou conta do país um profundo pessimismo. Nossa única esperança de não reviver o fracasso de 50 era Neymar. Aliás, ele era o único craque. Um craque como os do século XX e o último que vi em campo.  Falavam até numa tal Neymardependência. 

E seguia falando dos acontecimentos daqueles dias, vivos na sua retina, vividos com a intensidade da juventude. Embora Zé, naqueles dias, tenha visto tudo pela tv. 

- Nas quartas de final, o jogo foi contra a Colômbia, hoje temida, mas naqueles tempos era apenas o nascimento de sua geração de ouro. O futebol mudou muito. 

As lágrimas encheram os olhos de seu Zé, velhinho simpático e bem humorado.  

- Nesse jogo, o Brasil venceu. Mas depois de uma falta, Neymar saiu machucado. Fraturaram uma vértebra. O Brasil nunca sofreu tanto por uma vitória. Para muitos, a Copa havia terminado ali. Sem Neymar, não seria possível o hexa. O time dependia do seu grande e solitário gênio. E tinham razão, o Brasil dependia de Neymar. 

Naquele momento, Vô Zé começou a chorar, porque se lembrou do sentimento dolorido que teve naqueles dias. Não era o medo de perder o título. Essas coisas se resolvem. Vô Zé se lembrava que o menino de 22 anos assumira até se machucar a responsabilidade inteira para si, como os grandes costumam fazer. Mas naquela tarde de 4 de Julho, pensou o que pensava Neymar, a dor pela fratura, os sonhos se esvaindo. Vô Zé enxugou as lágrimas, que se confundiam com os sintomas da catarata adquirida com a idade. Os netos e os jovens, aguardavam o fim da história. 

- Era como se Neymar tivesse morrido. Uma morte em vida. Era Aquiles e seu ponto fraco. Era, para muitos, uma tragédia grega. Um herói morto no campo de batalha. Era o fim.

O vô lembrava que tragédia grega nunca foi o forte do brasileiro. Após tantos anos, nem tinha mais certeza se o que contava havia ou não acontecido. Poderia ser um sonho. Poderia ser um desejo, de recontar o passado e desfazer o mal-feito do destino. Seu Zé, que nunca viu na tragédia grega um espelho da história de seu povo e nunca foi adepto de historiadores europeus, sempre em busca de fatos incertos e verdades provisórias, sentiu-se livre para narrar a sua versão das finais:

- Na semifinal criou-se um clima gigantesco. Até os mascarados anarquistas resolveram torcer pela seleção. Fizeram um manifesto deixando claro que era pelo futebol, apenas. Não pelo Brasil, nem pelo imaginário nacional. A oposição pensou em continuar torcendo contra, mas se o fez, foi no claustro de suas mansões; a situação bombardeou-nos com propaganda ufanista. Os comunistas viam a oportunidade de criação de um herói coletivo: em substituição a Neymar, o povo ocupando a praça. Em suma, todos que puderam foram a Belo Horizonte. Invadiram a praia dos mineiros. E o Brasil venceu. Fred, até então vaiado copiosamente, fez dois gols e deu o passe para o terceiro de Henrique.

Eufórico com a lembrança, quase devaneando, seu Zé finalizou:

- Nada contra os argentinos. Os admiro. Mas naquela final, peguei meu carro e fui pro Rio de Janeiro, livros de Borges entre um café e outro na estrada, Piazola no MP3 e vinho, muito vinho de Mendoza. Parei o carro na linha vermelha, porque as estradas estavam inteiramente congestionadas. Foi o maior congestionamento da história mundial. Eram 8 da manhã e caminhei, junto com uma multidão, até os arredores do Maracanã. De fato, o povo substituiu Neymar. Não se sabe até hoje quem fez aqueles gols, da virada histórica da seleção. Não se sabe se foi o Fred, o Thiago Silva ou o Felipão, até hoje dizem que cada torcedor fez o gol. Havia cerca de 50 milhões de jogadores nas arquibancadas. O maior público da história do Maracanã. Que tragédia grega que nada, a contusão do Neymar nos deu um tema de novela em ritmo de realismo fantástico. O final foi feliz.


Vô Zé não sabia bem se o que contava era um conto ou uma novela das 10. Produto de exportação nacional há pelo menos 80 anos. Sabia que podia ser poesia. Pouco importava. Recontar aquela história, com aquelas palavras era um jeito de guardar só para si, o que de fato aconteceu.