quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Guerreiro: o centroavante e a bola

Crédito da Imagem: esporte.uol.com.br

Aos domingos, desde que sou pequeno, com maior ou menor frequência vou ao Pacaembu. Antigamente, era meu pai que me vestia com um uniforme do Corinthians, me colocava no seu chevette (marrom primeiro, depois vermelho) e íamos ver o Corinthians. Das primeiras vezes, me lembro pouco do time e como criança me atentava na torcida. Do time, lembro de fragmentos de imagens, dos cabelos compridos do Tupãzinho e da enorme, pra mim criança pequena, cabeça do Viola. E eu adorava o Viola. Quando cresci, fui entender que ele era um excelente centroavante, talvez um dos maiores que vi jogar. Técnico com a bola nos pés, ágil com a cabeça e de um posicionamento instintivo impressionante. 
De uns anos pra cá, cresci e me pai virou meu filho. Invertemos os papéis. Compro a camiseta, peço que vista, compro os ingressos, o coloco no carro, e apesar de morar em Campinas, vou até Santo André e de lá saímos até o Pacaembu. Recentemente, ganhamos uma companheira, a minha, em nossa empreitada e vamos ao estádio assistir o nosso Corinthians. Cresci e presto mais atenção ao jogo. Sempre acompanhado das mãos atadas de minha companheira, num ritual sagrado para que o time vença, seja um rival, seja a União Barbarense. E, também, dos comentários de meu pai sobre a postura deste ou daquele jogado.
Numa das últimas vezes, ele me falava de como o Paolo Guerrero era um atacante clássico e classudo. Pronto. Logo me recordei do Viola e pensei em dizer algumas linhas sobre o que vejo no campo, quando olho do meu Canto na Arquibancada e presto a atenção no seu jeito de conduzir e levar a bola. Foi assim, que depois de 20 anos, voltei a me encantar por outro centroavante (?). Poderia falar de sua atitude no Mundial Inter Clubes, em que pra mim, ele foi o melhor jogador do Corinthians. Não perdeu uma dividida, dominava a bola, passava com maestria, conduzia o ataque calmamente, friamente, como se previsse cada movimento a ser feito em direção ao gol. Mas quero falar de coisas mais cotidianas e de momentos menos gloriosos. Destes, muitos já falaram. 
Guerrero, peruano simpático e agradabilíssimo quando comparado às malas que surgem no futebol brasileiro, é um atacante tradicional. Domina a bola no peito e tenho a sensação que ela se sente abraçando o pai, escorre no seu peito, acaricia docilmente sua pele e decide descansar no seu pé. Em geral, ele prende a bola, usa o corpo como uma capa protetora, como um pai protegendo sua cria. Toca sutilmente a orelha da bola, simula uma dança ancestral, somente conhecida pelos descendentes diretos dos deuses incas. Engana um marcador e a coloca com doçura no pé de um companheiro. De repente desaparece e se apresenta a frente, recebe a filha de volta, a apara com uma sutileza, a beija com a chapa do pé e a conduz grudada, junto ao pé. E assim vai, ritualmente em direção a linha adversária. 
Quando pelo alto, salta e parece mover-se como se por um instante o futuro parecesse óbvio, e com a calma dos adivinhas, escolha o lado em que a colocará. Por vezes, o futuro se equivoca e lhe prega uma peça. O que em nada lhe desespera. Elegantemente, se reposiciona e repete o ritual. Bola quadrada arredondada no peito, a modela, a beija, a passa, some, reaparece, ginga e bate o pé. Em direção à linha dos adversários. Impressionantemente, como numa dança antiga que se faz e se refaz todas as vezes em que se torna o protagonista de um momento da partida. 
Guerrero é quase que um predestinado a jogar no Corinthians. Parece um enviado do outro Guerreiro, o São Jorge, que protege todo corinthiano. São Jorge, o Guerreiro, o colocou no Pq. São Jorge para proteger a personagem principal do jogo, a bola. Guerrero, com sua capa e sua lança, é Ogum em campo. E, no fim do jogo, meu pai diz, só via o Pelé matar a bola desse jeito, e minha companheira, esse Guerrero..., em um doce suspiro de quem vê pra além do jogo. Se um dia cuidar de minha filha com a classe, ternura e estilo com que ele trata a bola, serei o pai que desejo.

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