Era a Copa de 2054. Senhor José, também
chamado Seu Zé pelos vizinhos, Vô Zé pelos netos, contava suas histórias:
- Copa boa mesmo só vi uma: 2014. Antes
dela só marcação. Depois dela, o tal marketing tomou conta e nesse tal de
"futebol moderno", só sobrou brucutu. Teve muita goleada e muito jogo
bom. A Costa Rica ganhou da Itália, do Uruguai e só não ganhou da Holanda,
porque faltou perna. Sei que parece óbvio pra vocês a Costa Rica e a Colômbia
serem grandes seleções, mas naqueles tempos...
O futebol havia mudado, os clubes tinham
nome de empresas: Corinthians Emirates, Gomes da Costa Santos, Habibs São
Paulo. Alguns, outrora grandes, nem existiam mais. O Brasil estava na fila, uma
longa e dolorida fila e o amor ao futebol era coisa dos mais velhos. Além
disso, depois do grande bug que ocorrera em 2030, todas as imagens do passado
se resumiam nos restos de memória coletiva daqueles que sobreviveram. Seu Zé
era um desses. E gostava de falar de um tal de Neymar, que só conheciam pelas
palavras do avô e de outros daquela geração.
- Antes da Copa, a maioria não a queria.
Mas éramos o país do futebol. Conforme a Copa passou dos primeiros jogos, se
transformou numa catarse coletiva. Quando acabou a primeira fase o Brasil
enfrentou uma poderosa seleção chilena. Empatou em 1 a 1 e venceu nos pênaltis.
Todos questionaram a pressão sofrida por aqueles garotos. Falavam que o time
pipocaria. Expressão da época para aqueles que amarelavam, que sentiam o peso
da camisa, ah sei lá como explicar isso pra vocês... Da euforia de antes da
Copa, em que seríamos os campeões, tomou conta do país um profundo pessimismo.
Nossa única esperança de não reviver o fracasso de 50 era Neymar. Aliás, ele
era o único craque. Um craque como os do século XX e o último que vi em campo.
Falavam até numa tal Neymardependência.
E seguia falando dos acontecimentos
daqueles dias, vivos na sua retina, vividos com a intensidade da juventude.
Embora Zé, naqueles dias, tenha visto tudo pela tv.
- Nas quartas de final, o jogo foi contra
a Colômbia, hoje temida, mas naqueles tempos era apenas o nascimento de sua
geração de ouro. O futebol mudou muito.
As lágrimas encheram os olhos de seu Zé,
velhinho simpático e bem humorado.
- Nesse jogo, o Brasil venceu. Mas depois
de uma falta, Neymar saiu machucado. Fraturaram uma vértebra. O Brasil nunca
sofreu tanto por uma vitória. Para muitos, a Copa havia terminado ali. Sem
Neymar, não seria possível o hexa. O time dependia do seu grande e solitário
gênio. E tinham razão, o Brasil dependia de Neymar.
Naquele momento, Vô Zé começou a chorar,
porque se lembrou do sentimento dolorido que teve naqueles dias. Não era o medo
de perder o título. Essas coisas se resolvem. Vô Zé se lembrava que o menino de
22 anos assumira até se machucar a responsabilidade inteira para si, como os
grandes costumam fazer. Mas naquela tarde de 4 de Julho, pensou o que pensava
Neymar, a dor pela fratura, os sonhos se esvaindo. Vô Zé enxugou as lágrimas,
que se confundiam com os sintomas da catarata adquirida com a idade. Os netos e
os jovens, aguardavam o fim da história.
- Era como se Neymar tivesse morrido. Uma
morte em vida. Era Aquiles e seu ponto fraco. Era, para muitos, uma tragédia grega. Um herói morto no campo de batalha. Era o fim.
O vô lembrava que tragédia grega nunca foi
o forte do brasileiro. Após tantos anos, nem tinha mais certeza se o que
contava havia ou não acontecido. Poderia ser um sonho. Poderia ser um desejo,
de recontar o passado e desfazer o mal-feito do destino. Seu Zé, que nunca viu
na tragédia grega um espelho da história de seu povo e nunca foi adepto de
historiadores europeus, sempre em busca de fatos incertos e verdades
provisórias, sentiu-se livre para narrar a sua versão das finais:
- Na semifinal criou-se um clima
gigantesco. Até os mascarados anarquistas resolveram torcer pela seleção.
Fizeram um manifesto deixando claro que era pelo futebol, apenas. Não pelo
Brasil, nem pelo imaginário nacional. A oposição pensou em continuar torcendo
contra, mas se o fez, foi no claustro de suas mansões; a situação
bombardeou-nos com propaganda ufanista. Os comunistas viam a oportunidade de criação de um herói coletivo: em substituição a Neymar, o povo ocupando a
praça. Em suma, todos que puderam foram a Belo Horizonte. Invadiram a praia dos
mineiros. E o Brasil venceu. Fred, até então vaiado copiosamente, fez dois gols
e deu o passe para o terceiro de Henrique.
Eufórico com a lembrança, quase
devaneando, seu Zé finalizou:
- Nada contra os argentinos. Os admiro.
Mas naquela final, peguei meu carro e fui pro Rio de Janeiro, livros de Borges entre
um café e outro na estrada, Piazola no MP3 e vinho, muito vinho de Mendoza.
Parei o carro na linha vermelha, porque as estradas estavam inteiramente congestionadas. Foi o maior congestionamento da história mundial. Eram 8 da manhã e caminhei, junto com uma
multidão, até os arredores do Maracanã. De fato, o povo substituiu Neymar. Não se
sabe até hoje quem fez aqueles gols, da virada histórica da seleção. Não se
sabe se foi o Fred, o Thiago Silva ou o Felipão, até hoje dizem que cada
torcedor fez o gol. Havia cerca de 50 milhões de jogadores nas arquibancadas. O
maior público da história do Maracanã. Que tragédia grega que nada, a contusão
do Neymar nos deu um tema de novela em ritmo de realismo fantástico. O final
foi feliz.
Vô Zé não sabia bem se o que contava era
um conto ou uma novela das 10. Produto de exportação nacional há pelo menos 80
anos. Sabia que podia ser poesia. Pouco importava. Recontar aquela história,
com aquelas palavras era um jeito de guardar só para si, o que de fato
aconteceu.
Turcofuturismo...
ResponderExcluir2054... 40 anos mano... 10 copas!!!
Até lá o Neymar vai ser tiozão igual nóis, mas terá mais moleza. Vai trabalhar como comentarista no programa esportivo do craque Emerson (o ex-Sheik). 40 anos é muito tempo, fera. Dá até pra Costa Zika virar potência do futebol. Até lá, tomara que os caras inventem a Libertadores Apertura e Clausura. Tomara que coloquem outra copa no lugar das OLimpíadas.
Sinistro esse episódio de nossa história.
FALOU.
Da hora Marquin... Juntei tudo que ouvi nestes dias... E sinistrei!
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