sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Futebol e Malandragem

Uma das maiores incompreensões do jornalismo brasileiro atual é atitude dissimulada de jogadores, que fingem sofrer jogadas, que não aconteceram. Muitas vezes simulam faltas, outras exageram em jogadas simples. A discussão da imprensa sempre gira ao redor de questões morais, num certo extremismo de quem vê as situações como pólos simples. Ou se age de modo correto ou de modo errado. Claro que esse jeito de ver a vida e os fenômenos dela extrapolam o contexto do futebol, tocando outros espaços e outras esferas da existência. Mas, no futebol, fica evidente o julgamento simplório. Atualmente há prêmios em programas esportivos para os jogadores mais mentirosos ou "malandros".



No meu entender, tal discussão se conecta com a lendária figura do malandro. Neymar, por exemplo, é um dos jogadores mais citados como representante do cai-cai. Admira-se sua dissimulação com a bola nos pés. Mas se condena os momentos em que provoca o adversário ou simula movimentos bruscos, quando poderia simplesmente seguir em pé, continuando a jogada. Ou seja, aceita-se a malandragem em um de seus aspectos, mas nega-se os outros, como sinônimos de desonestidade. É mais ou menos como se fosse possível ser bom ou ruim, escolhendo o bem ao mal, em todas as situações. O bem e o mal, o bom e o ruim, veem como se existissem de modo autônomo. Se esquece toda uma área cinzenta entre o bem e o mal, que é o espaço real de existência da vida.

Na maior parte do tempo não somos nem bons, nem ruins. Somos bondosos em nossa ruindade e ruins em nossa bondade. Somos complexos como a vida. E num jogo complexo como o futebol, em que a intuição é quem resolve a maior parte das situações, conseguir optar, o tempo todo, por um extremo ou outro é praticamente impossível. É a partir destas reflexões que penso a figura do malandro ou a malandragem dentro do futebol.

O malandro não é o sujeito que faz maldades pensando em seu próprio bem. A figura de personagens malandros, bandidos ou de párias sociais, em quaisquer sociedades, se apresenta a partir de caracteres dicotômicos. É preciso entender as raízes históricas e sociais de sua formação, para que se explique sua dicotomia. Foram muitos os autores da sociologia, da antropologia ou da ficção literária que trataram o tema. O malandro surge de uma sociedade hierarquizada e violenta. Na impossibilidade de se inserir socialmente, como é o caso do negro e do pardo no fim da escravidão no Brasil, o espaço social destinado a esses personagens passa a ser a vadiagem. Vadiagem não no sentido de uma opção consciente, mas como produto de uma imposição social por parte dos grupos dominantes. Desse modo, em nome da sobrevivência, o malandro age de modo moral negativo, para conseguir sobreviver e se inserir do modo como é possível. Como numa dialética da malandragem.

Não é possível ser malandro pela metade. Se Neymar é do jeito que é com a bola nos pés. O será sem ela. Se enganará os defensores com os pés. Enganará quando não for falta, dissimulará diante do juíz. Fingirá faltas que não sofreu e provocará seus adversários para que percam a cabeça. A malandragem é uma identidade e como tal é fruto das tensões sociais da sociedade que muitas vezes, atravessam o espírito dos que nela se inserem. O futebol brasileiro é recheado de exemplos semelhantes.

Não é Garrincha um dos maiores craques que tivemos? E não é com seus dribles, sua simplicidade macunaímica (nas palavras de José Miguel Wisnik em Veneno Remédio, o futebol e o Brasil, Editora Cia. das Letras, 2008) e sua dissimulação que chegamos a dois títulos mundiais? E também não é com Nilton Santos enganando o juíz num famoso lance, em que faz um penalti, dá dois passos e finge ter feito apenas uma falta fora da área, que vencemos a Espanha em 1962? E não é uma cotovelada de Pelé que quebra o nariz de um uruguaio na copa de 70 que repetimos e exaltamos? E não foi Rivaldo responsável pela expulsão de um turco na primeira partida de 2002? Ora, estes são alguns dos exemplos de malandragem, por vezes esquecido na nossa imprensa que nos sagramos o futebol cinco vezes campeão do mundo.

Macunaíma, personagem de Mário de Andrade, é definido por este como o herói sem nenhum caráter. Herói de nossa gente. O entendimento de que somos um povo sem um caráter (no sentido de sinal que nos distingue) é um dos momentos do pensamento social brasileiro, representado aqui ficcionalmente. Não somos sem caráter, porque somos crápulas. Mas sim, porque formados de uma heterogeneidade cultural. Também somos fruto da exploração mercantilista européia. Durante 500 anos, somos explorados em diferentes níveis e não conseguimos optar por uma via própria de desenvolvimento, senão em função do que nos é imposto de fora.

Uma das características que a exploração portuguesa e inglesa nos deixa é uma sociedade profundamente desigual. E nesta sociedade, a figura do MALANDRO surge como uma necessidade e uma estratégia de sobrevivência. Ano passado, ouvi hipocritamente, o jornalista britânico Tim Vickery, reclamar da malandragem de Émerson Sheik na final contra o Chelsea, no Mundial de Clubes da Fifa. Me irritei. Porque os jornalistas brasileiros concordaram. Apenas esquecem que se a malandragem hoje leva os ingleses à derrota, é porque eles mesmos nos deixaram este legado. E se hoje nos representamos assim no futebol não é por desonestidade ou por desejo de vencer a qualquer custo. Mas porque este é um de nossos caracteres sociais construídos historicamente.

Não aceito a ideia de que somos malandros e de que isso é ruim. Como diria um amigo, não é bom, nem ruim. É tudo que temos e tudo que somos. Que não percamos nossos traços por buscar um padrão de identidade que não é, nem pode ser nosso, a hipocrisia europeia com seus sinais de uma suposta civilidade. Termino esta conversa, prometendo voltar a ela. Deixa a música que resume o que penso: O Malandro, de Chico Buarque, parte de sua peça de mesmo nome.


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