Essa noite eu tive um sonho. Era final de campeonato e não havia pessoas nas ruas. As procurava, casa por casa, e nelas também pessoas não havia. Todos os televisores desligados, embora todas as bandeiras enfeitassem janelas. Era uma cidade colorida de silêncio, verdes, vermelhos, pretos e brancos. Havia também amarelos, rosas, lilases e demais cores que compunham um arco íris.
O mundo estava suspenso e não havia carros, semáforos ou transeuntes. Não havia buzinaços, apitaços, nem tão pouco cornetas ou chocalhos. Batucada se ouvia ao longe, um longe distante, quase mudo. Os templos vazios de pregadores. As praças vazias de mendigos, prostitutas, taxistas. Não havia professores nos colégios. Operários nas fábricas. Hipócritas nas bolsas de valores. Tão pouco havia redes de internet, de pesca. Todas as redes guardadas para a servir à meta do grande jogo.
Todos, mulheres, crianças. Jovens, velhos, senhores distintos e indistintos. Prostitutas, traficantes e policiais. Pregadores, professores e predadores. Todos ocupavam seu assento no mesmo estádio, aos milhões de montes, para assistir ao jogo. E o som da batucada, pruntumbumpaticumbum, baticumbava alto, agora.
No meu sonho, não havia ingressos de 100 ou 1000 reais. Ingressos não havia para o jogo. Todos se acomodavam nos melhores lugares do estádio, em pé ou sentado como preferissem. Nos entornos não havia carros de TV barulhentos, porque não havia necessidade de um homem dizendo aos torcedores o que podiam ver com as mãos e os olhos. Não havia placas de publicidade. Não havia carros de ambulantes. Embora, fosse possível notar que todos comiam lanche de pernil, feijão tropeiro, regado a baldes de cerveja. Não havia grades que separassem os rivais, porque rivais não havia.
Não havia jornalistas cercando protagonistas, porque nesta final não havia protagonistas. Não havia, no jogo, brigas, discussões ou xingamentos aos jogadores, como se eles tivessem a obrigação de acertar em cada lance. O médico que assistia ao jogo, aceitava o erro, pensava nos erros que tantas vezes cometia. O professor, errado de nascença, não xingava o erro de passe do camisa 9, porque ele mesmo não acertava todas as contas que fazia. Até mesmo o treinador, que lembrando de seus erros de escalação ou de posicionamento, resolvera aceitar os erros de quem dirigia.
Nos cânticos das torcidas, apenas músicas que narravam o seu amor e sua história, em acordes regidos por maestros populares da música samba da sua terra.
Gritos de protesto também não havia.
Gritos de protesto também não havia.
Havia gol, magia, rito. A partida acabou, pelo que lembro, 4 a 3. Os vencedores comemoravam sua vitória, como eufóricos por tamanha conquista. Os derrotados saiam cumpridores de sua missão, sabendo que a felicidade é uma coisa assim, tão maior, quanto mais acumuladas frustrações. Esperavam também eufóricos, os dias em que venceriam tão honroso adversário.
Os torcedores, entendendo o ensejo, iam pra casa cantando sua glória ou seu sofrimento. Sabedores de que voltariam, poderiam voltar a lugar tão mágico, sem catracas, cambistas, emissoras de TV. Não havendo intermediários midiáticos com interesses escusos, poderiam voltar ao palco de tão honroso teatro, celebrando suas bandeiras e identidades.
Os homossexuais se beijavam. As mulheres chutavam latas imitando os lances que viam. Os homens, cordialmente, abriam passagem para a comemoração dos vitoriosos e para o ritual fúnebre, não menos importante, dos derrotados. Era assim, esse meu sonho. O futebol, um jogo de crianças, num empinar de pipas despretensioso no céu verde dos gramados.
Os homossexuais se beijavam. As mulheres chutavam latas imitando os lances que viam. Os homens, cordialmente, abriam passagem para a comemoração dos vitoriosos e para o ritual fúnebre, não menos importante, dos derrotados. Era assim, esse meu sonho. O futebol, um jogo de crianças, num empinar de pipas despretensioso no céu verde dos gramados.
Fala Vitão...
ResponderExcluira parte do "pruntumbumpaticumbum" ficou bem da hora... rsrs
Parabéns pelo texto.
FALOU.
Era o Cabral na regência...
ExcluirÉ provável que tenhamos nos encontrado na curva da arquibancada, porque rivais não havia. Foram dois baldes de cerveja?
ResponderExcluirFicamos em pé. E bebiamos...
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