sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O Imperador e o jornalismo esportivo

Esse post não vai falar do Adriano Imperador. Mas sim, do Imperador, um outro. Com quem o primeiro mantém muita afinidade, diga-se de passagem. Nos antigos impérios, a figura do Imperador é tida como uma espécie de divindade terrena, que tudo pode e tudo consegue. Esta figura foi usada, já no século XX, pela psicanálise freudiana para metaforizar a parte humana destinada aos desejos. O inconsciente humano seria, nessa leitura, carregado de contradições, ora pautada nos desejos internos, que nos impulsionam à vida, ora pautado em impedimentos internos de ordem moral, que se contraporiam ao desejo. Em palavras bem mais simples: todos temos dois lados que se confrontam dentro da gente, o desejo e a moral.
Expandindo um pouco a ideia, para construir minha linha reflexiva. Se sou um jogador de futebol e desejo comer um quilo de picanha antes de um jogo decisivo (êêê Vaixco da Gama), em geral, em minha mente surge uma barreira que me lembra do jogo e me diz que não devo comer. Se não realizo meu desejo posso me frustrar imediatamente, mas se o realizo e meu time perde, vem uma voz sutil e conhecida de todos nós, que nos repete: eu avisei! Essa é (muito) simplificadamente a teoria freudiana. O ser humano está a mercê de seu desejo e de sua moral, que ora levam a satisfação, breve, passageira e ora a culpa. 
Não é fácil reconhecer essa luta interna nossa de cada dia. São poucos os sujeitos que param, em uma sociedade moderna e veloz, para tecer uma análise desse tipo sobre si próprio. Num mundo hedonista como o nosso, queremos tão logo realizar nossos desejos, para em seguida desejar mais e evitarmos eternamente a frustração. Mas todos, reconhecendo esse lado ou não nos deparamos com essas lutas que se tornam mais ou menos agressivas entre a gente. Não seriam, portanto, os jornalistas, os únicos culpados por não a reconhecerem dentro de si. Mas vale o alerta.
Programas e eventos futebolísticos passam por duas situações em que os desejos dos sujeitos se sobressaem: quando analisam o jogo (presente ou passado) ou quando opinam sobre o futuro do jogo ou do time analisado. Análise é um termo grego que significa quebra ou dissolução. Muito usado na ciência, para designar o procedimento de observação das partes de um todo, no intuito de compreende-lo melhor, jogar luz sobre aspectos deste todo, ou mesmo concluir algo sobre ele. Primeiro se analisa, com algum critério e depois se opina sobre o analisado. Como nas transmissões não se vê uma preocupação analítica metodológica, as opiniões são frágeis, equivocadas e superficiais. Ou visto por outro ângulo, a dinâmica do futebol impede que jornalistas façam análises metódicas e profundas sobre quaisquer de suas partes, bem como consigam algum acerto baseado na lógica ou na razão.
Trata-se, portanto, de um tipo de análise que não passa por uma abordagem metodológica, mas sim por critérios intuitivos. Na maior parte dos acertos de jornalistas, sem que percebam, usam suas experiência e suas noções para atingirem seus darem a sentença. Um exemplo disso é o Neto, que conhecendo como poucos a arte de bater na bola, acerta gols de faltas, vez ou outra, de determinados batedores. Sua experiência o leva ao acerto, o que não torna menos válida a análise. No entanto, a questão é que usando a intuição, o desejo e a moral, gritam muito mais, tornamos as palavras menos controláveis e subjetivizamos a análise.
Nisso não incorreria problemas, se os jornalistas assumissem suas parcialidades e em partes, o seus desejos. Nós torcedores confiaríamos menos neles e nos tornaríamos menos irritáveis às suas atuações. Esses dias Casagrande sentenciou que o São Paulo cairia porque tinha um péssimo time. Caio Ribeiro falou o contrário, concordando que o time tricolor era frágil. Freud diria, que diante dessas opiniões, um deseja que o São Paulo seja rebaixado, enquanto o outro que permaneça na primeirona. Desejos, não análises. Em última instância, todos desejam.
Em suma, quando escuto um jornalista falar sobre qualquer assunto, e no nosso caso, o futebol, penso que todos eles desejam que suas análises sejam verdadeiras. No fundo, mesmo em análises complexas e científicas alguma ponta de desejo sempre escapa. Mas na prática, nossos jornalistas nunca assumem o que sentem, senhores e condutores racionais e sóbrios, últimos sábios das quatro linhas. Jornalistas desejam que as torcidas organizadas acabem, desejam que grandes clubes caiam, desejam que seus clubes de coração sempre sejam os campeões, desejam que os árbitros nunca ou sempre errem, desejam o melhor e o pior futebol do mundo, desejam ganhar mais, desejam e reproduzem, seus desejos, quando não os desejos das instituições que pagam seus salários. Mas nunca assumem, nunca assumem nada. A culpa, amigo ao contrário do desejo, é sempre dos outros, nunca deles. Freudianamente falando. 

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