Capital e Trabalho: a política dos boleiros
O texto a seguir será um pouco denso, mas
fácil de entender. Pretende mais dizer o que eu diria sobre o Bom Senso F.C., a
partir de minhas leituras de Marx (o velho barba da Prússia, cada vez mais lido
nos tempos de crise), do que propriamente o que Marx diria. Oxalá Marx pudesse
dizer algo. Como não pode, me arrisco por seu texto e o trago pra atualidade
futeboleira do Brasil, anil e amargo de nossos dias. A primeira parte
deste texto se dedicará a argumentar sobre os dados objetivos econômicos e
políticos do movimento. A segunda parte, sobre as questões subjetivas, mais
precisamente sobre o modo como o político adentra ao campo de jogo e a nossa
percepção dele.
Pois bem, para começo de conversa, o Bom
Senso F.C. é um movimento de jogadores profissionais e será entendido nestas
linhas como um movimento reivindicatório de um grupo de trabalhadores. Não me
importarei se ganham mais ou menos que as demais categorias. Isso não
importaria, nem a mim e nem a Marx. O que importaria em sua teoria é o fato de
que como profissionais (ou trabalhadores, como queiram) eles vendem sua Força
de Trabalho no mercado, para "investidores" (capitalistas) em troca
de um salário. A Força de Trabalho, para Marx, é nada mais que o tempo que usam
para exercerem sua atividade. Não importa se são apertadores de parafusos ou
aparadores de bolas com o corpo. Importa que exercem com suas capacidades
psíquicas e físicas certa atividade em troca de salário. Os jogadores vendem
seu tempo e os "investidores" (os dirigentes, os clubes, as
corporações e todos os atores envolvidos nesse processo) lucram com essa troca.
Se lucram com essa troca, movimentam um dinheiro que estaria de outro modo
parado, e ao movimentarem esse dinheiro, o transformam em Capital. Trata-se
portanto de uma relação entre Trabalho de um lado e Capital do outro.
No capítulo 8 do Capital, Marx escreve um
longo capítulo dedicado a Jornada de Trabalho. Para Marx, a relação entre
Trabalho e Capital é antagônica e insolúvel. Ao Capital interessa que o
Trabalho seja exercido no máximo de horas possíveis, sem que necessariamente se
pague por essas horas. Tal fato decorre de sua percepção sobre o modo como o
Valor (não confundir com o preço) é constituído na sociedade. Marx percebe que
o Valor é produzido pelo Tempo de Trabalho dispendido na produção de uma
Mercadoria. E percebe matematicamente (é uma prova, minha gente) que o lucro
não é gerado na troca da coisa Mercadoria, mas sim gerado na troca entre a
Força de Trabalho e o Salário. É essencial ao Capital extrair o máximo de horas
de trabalho, porque sem isso não há ganho, não há retorno do Dinheiro
investido.
Provamos isso quando percebemos que em
momentos de crise, as propostas da sociedade quase sempre giram em torno de se
ampliar ou flexibilizar as horas de trabalho, mantendo os salários. Mas se isso
não for possível legalmente, o Capital encontra artifícios. Por exemplo, se eu
sou pago para exercer uma atividade por 8 horas, recebo em meu contrato de trabalho
as 8 horas. Essa é uma troca justa. Mas se meu patrão fizer essa troca, ele não
AGREGA Valor e apenas empata o jogo do lucro. Para vencê-lo, ele precisa me
pagar pelas 8 horas, mas me fazer produzir como se fossem 12 horas. Agregou com
isso, 4 horas de trabalho e isso se transforma em Valor, que vira o preço e que
o faz lucrar mais. De modo simplificado, é isso que Marx chama de Mais-Valor ou
Mais-Valia.
Voltemos aos exemplos: eu trabalho 8
horas. Mas para trabalhar as 12 horas necessárias pro lucro, basta que ele (meu
patrão) me mande e-mails e me ligue fora do horário de trabalho. Ele continua
pagando 8 horas, mas aumentou minha carga de trabalho. Os profissionais da
administração de empresas (não de humanos) gostam de encontrar artifícios como
esses e em tempos de Internet é cada vez mais difícil separar o que é o ESPAÇO
do trabalho, de outros ESPAÇOS da vida. Como professor, sei muito bem disso,
quando corrijo um milhão de provas fora da sala de aula, que é o meu ESPAÇO de
trabalho.
Pois bem, voltando ao Bom Senso F.C., os
jogadores se reuniram na tentativa de diminuir o tempo trabalhado. Sentem-se
exauridos fisicamente, percebem as desigualdades econômicas entre os atletas da
Elite e os demais atletas, reivindicam portanto, menos horas trabalhadas e
manutenção dos seus ganhos. O que recebem da outra parte? Recebem um Não! Só
podem receber um não, porque Marx tinha razão, a relação entre eles é uma
relação inconciliável entre Capital e Trabalho e aos “investidores” não
interessa a diminuição da Mais-Valia.
Essa é a Antinomia desta relação. Não sei
como ela acabará, mas se Marx pudesse lhes dar um conselho, diria, meus amigos,
unam-se, os poderosos do futebol tremerão diante de sua união e serão obrigados
a recuar. A vitória ou a derrota do movimento dependerá de ter claro que se
trata sim de uma questão política e já antiga, ao contrário, do que alguns
jogadores disseram, como o goleiro Rogério Ceni, que defendeu não se tratar de
movimento político. Ora, Marx sabe que a Economia só abaixa a crista para a
Política e é nessa esfera que devem resolver essa contradição.
A segunda parte deste texto tratará do que
Marx diria sobre o modo como o TEMPO se relaciona com o jogo dentro das quatro
linhas e sobre os artifícios dos donos do jogo para aumentarem os seus lucros.
Estas coisas não parecem ter relação, mas estão profundamente relacionadas.
Um dos protestos do grupo: jovempan.uol.com.br


Velho, toda vez que estou corrigindo provas o juiz dá infinitos minutos de acréscimo.
ResponderExcluirVALEU.