terça-feira, 19 de novembro de 2013

O que Marx diria do Bom Senso F.C. - Parte 1

Capital e Trabalho: a política dos boleiros


O texto a seguir será um pouco denso, mas fácil de entender. Pretende mais dizer o que eu diria sobre o Bom Senso F.C., a partir de minhas leituras de Marx (o velho barba da Prússia, cada vez mais lido nos tempos de crise), do que propriamente o que Marx diria. Oxalá Marx pudesse dizer algo. Como não pode, me arrisco por seu texto e o trago pra atualidade futeboleira do Brasil, anil e amargo de nossos dias. A primeira parte deste texto se dedicará a argumentar sobre os dados objetivos econômicos e políticos do movimento. A segunda parte, sobre as questões subjetivas, mais precisamente sobre o modo como o político adentra ao campo de jogo e a nossa percepção dele.

Pois bem, para começo de conversa, o Bom Senso F.C. é um movimento de jogadores profissionais e será entendido nestas linhas como um movimento reivindicatório de um grupo de trabalhadores. Não me importarei se ganham mais ou menos que as demais categorias. Isso não importaria, nem a mim e nem a Marx. O que importaria em sua teoria é o fato de que como profissionais (ou trabalhadores, como queiram) eles vendem sua Força de Trabalho no mercado, para "investidores" (capitalistas) em troca de um salário. A Força de Trabalho, para Marx, é nada mais que o tempo que usam para exercerem sua atividade. Não importa se são apertadores de parafusos ou aparadores de bolas com o corpo. Importa que exercem com suas capacidades psíquicas e físicas certa atividade em troca de salário. Os jogadores vendem seu tempo e os "investidores" (os dirigentes, os clubes, as corporações e todos os atores envolvidos nesse processo) lucram com essa troca. Se lucram com essa troca, movimentam um dinheiro que estaria de outro modo parado, e ao movimentarem esse dinheiro, o transformam em Capital. Trata-se portanto de uma relação entre Trabalho de um lado e Capital do outro. 
No capítulo 8 do Capital, Marx escreve um longo capítulo dedicado a Jornada de Trabalho. Para Marx, a relação entre Trabalho e Capital é antagônica e insolúvel. Ao Capital interessa que o Trabalho seja exercido no máximo de horas possíveis, sem que necessariamente se pague por essas horas. Tal fato decorre de sua percepção sobre o modo como o Valor (não confundir com o preço) é constituído na sociedade. Marx percebe que o Valor é produzido pelo Tempo de Trabalho dispendido na produção de uma Mercadoria. E percebe matematicamente (é uma prova, minha gente) que o lucro não é gerado na troca da coisa Mercadoria, mas sim gerado na troca entre a Força de Trabalho e o Salário. É essencial ao Capital extrair o máximo de horas de trabalho, porque sem isso não há ganho, não há retorno do Dinheiro investido. 
Provamos isso quando percebemos que em momentos de crise, as propostas da sociedade quase sempre giram em torno de se ampliar ou flexibilizar as horas de trabalho, mantendo os salários. Mas se isso não for possível legalmente, o Capital encontra artifícios. Por exemplo, se eu sou pago para exercer uma atividade por 8 horas, recebo em meu contrato de trabalho as 8 horas. Essa é uma troca justa. Mas se meu patrão fizer essa troca, ele não AGREGA Valor e apenas empata o jogo do lucro. Para vencê-lo, ele precisa me pagar pelas 8 horas, mas me fazer produzir como se fossem 12 horas. Agregou com isso, 4 horas de trabalho e isso se transforma em Valor, que vira o preço e que o faz lucrar mais. De modo simplificado, é isso que Marx chama de Mais-Valor ou Mais-Valia.
Voltemos aos exemplos: eu trabalho 8 horas. Mas para trabalhar as 12 horas necessárias pro lucro, basta que ele (meu patrão) me mande e-mails e me ligue fora do horário de trabalho. Ele continua pagando 8 horas, mas aumentou minha carga de trabalho. Os profissionais da administração de empresas (não de humanos) gostam de encontrar artifícios como esses e em tempos de Internet é cada vez mais difícil separar o que é o ESPAÇO do trabalho, de outros ESPAÇOS da vida. Como professor, sei muito bem disso, quando corrijo um milhão de provas fora da sala de aula, que é o meu ESPAÇO de trabalho.
Pois bem, voltando ao Bom Senso F.C., os jogadores se reuniram na tentativa de diminuir o tempo trabalhado. Sentem-se exauridos fisicamente, percebem as desigualdades econômicas entre os atletas da Elite e os demais atletas, reivindicam portanto, menos horas trabalhadas e manutenção dos seus ganhos. O que recebem da outra parte? Recebem um Não! Só podem receber um não, porque Marx tinha razão, a relação entre eles é uma relação inconciliável entre Capital e Trabalho e aos “investidores” não interessa a diminuição da Mais-Valia.
Essa é a Antinomia desta relação. Não sei como ela acabará, mas se Marx pudesse lhes dar um conselho, diria, meus amigos, unam-se, os poderosos do futebol tremerão diante de sua união e serão obrigados a recuar. A vitória ou a derrota do movimento dependerá de ter claro que se trata sim de uma questão política e já antiga, ao contrário, do que alguns jogadores disseram, como o goleiro Rogério Ceni, que defendeu não se tratar de movimento político. Ora, Marx sabe que a Economia só abaixa a crista para a Política e é nessa esfera que devem resolver essa contradição.


A segunda parte deste texto tratará do que Marx diria sobre o modo como o TEMPO se relaciona com o jogo dentro das quatro linhas e sobre os artifícios dos donos do jogo para aumentarem os seus lucros. Estas coisas não parecem ter relação, mas estão profundamente relacionadas. 
Um dos protestos do grupo: jovempan.uol.com.br

Um comentário:

  1. Velho, toda vez que estou corrigindo provas o juiz dá infinitos minutos de acréscimo.
    VALEU.

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