quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Copa de 1950 não acabou


Os impactos da Copa de 50 foram brutalmente sentidos ao longo destes 64 anos que nos separam dela. Não apenas no âmbito do futebol, mas em todos os aspectos da vida nacional. Em termos imaginários, nas palavras do antropólogo Roberto da Matta, a nossa grande tragédia coletiva no século XX. Me foi devolvido nessa semana, um livro que comprei há três anos, mas não lera. Anatomia de uma derrota, do historiador Paulo Perdigão. Decidi então, aproveitar o ensejo e passar as vistas, finalmente pelas linhas iniciais. O livro me agradou. Começa colocando questões para além do futebol. Cita filosofia. Um quê de subjetividade. Tudo me agrada. Decidi avançar na leitura, e fiquei surpreso. Meu olhar para o que ocorre no presente está modificado.
Nestas linhas quero falar sobre as coincidências entre 1950 e 2014.

A imagem que fazemos de nós mesmos

Assim como em 1950, fizemos uma Copa para coroar a ideia de que somos o país do futuro. Embora o ciclo econômico virtuoso de 50 tenha ocorrido depois da Copa e atualmente antes, em ambos os casos a realização da Copa tem a ver com a imagem de país do futuro, que desde Caminha ("em se plantando tudo dá"), passando pelos românticos e sobrevivendo às críticas dos modernistas, constitui nosso imaginário. A Copa seria, nos dois casos, a possibilidade de mostrar ao mundo nossas virtudes, ressaltando pra nossa autoestima combalida que somos mais do que dizemos pra nós mesmos cotidianamente. 

Grandes obras
Maracanã, 1950

A arquitetura é um dos elementos nos quais o imaginário de uma sociedade se materializa. Não à toa, o Maracanã, estádio colossal, e descrito como maravilhoso pelos estrangeiros presentes no Mundial de 50, fora construído com a ideia de materializar esse imagem de suntuosidade e de potência por se realizar. Agora reformado, junto com mais 11 estádios cumprem este papel. Em 1950, o Maracanã viveu momentos apoteóticos, como as duas goleadas brasileiras sobre Suécia e Espanha, 7 a 1 e 6 a 1 respectivamente, mas foi entregue ainda em obras, na estréia torcedores e andaimes dividiam espaço. Foi também o lugar da maior derrota coletiva, que criou a noção Rodrigueana de Complexo de Vira-Latas. Preparado para ser nosso Pantheon, tornou-se nosso Gólgota. 
Maracanã, 2014

Invasões

Em 1950, na semifinal contra a Espanha, torcedores invadiram o estádio carioca para assistir o jogo, ferindo mais de 200 pessoas e matando 1. Os motivos: fim dos ingressos e preços abusivos de cambistas. Os chilenos fizeram o mesmo ontem, no mesmo estádio e pelo mesmo motivo. Sem matar ninguém. No domingo, argentinos já haviam feito o mesmo.

O jogo

Assim como em 50, o Brasil venceu o primeiro jogo (contra o México!!!) por 4 a 0, criando muita expectativa na torcida. No segundo, um empate com a Suíça, por 2 a 2 em São Paulo, jogo do qual a seleção saiu vaiada efusivamente (como não poderia deixar de ser, sendo o jogo onde foi). Depois a seleção embalou, sofrendo a derrota no último jogo do quadrangular final e perdendo o titulo para os uruguaios.

Compulsão à repetição

Outras coincidências devem existir. Podem ser coincidências, acaso ou sabe-se lá mais o quê, num país predestinado a um olhar mítico e místico de si próprio. Para bem e para mal. Nunca fomos bons em coisas de bom senso. Só sabemos amar ou odiar. Seja lá o que for. 
Tudo isso me lembrou a teoria freudiana ilustrada em A interpretação dos Sonhos de 1901. Reproduzo e simplifico aqui, o que entendi dela. Nesta tese, Freud defende o suposto de que o aparelho mental deseja evitar o sofrimento, fazendo o sujeito agir para realizar algum prazer. Imagine uma estrada em que de um lado está o desprazer, onde costumamos ficar. De outro há o lugar do prazer. Nossos pensamentos querem deslocar-se de um lado a outro dessa estrada: do primeiro ao segundo polo. Como o sofrimento é inevitável, criamos comportamentos repetitivos que surgem sempre que o sofrimento nos assola. Denominou esse movimento de Compulsão à repetição. Esse comportamento é um sofisticado mecanismo de defesa de nosso inconsciente para não tornar a existência insuportável. 
Anos depois, Freud reconsiderou a hipótese. Nosso aparelho mental não apenas recorre à repetição para conseguir o prazer, mas para evitar que o desprazer comece, mesmo que imaginariamente. Como se tentasse voltar a um lugar anterior ao início daquela sensação que nos causa desprazer.
 Gighia chuta bola de nosso calvário

Transpondo a tese de Freud para uma análise psicanalítica da nação, em termos quem sabe Junguianos, nosso inconsciente coletivo deseja evitar o sofrimento de 1950 e todas as suas consequências. Sobretudo evitar comprovar que será impossível nos realizarmos enquanto país do futuro, novamente. Trata-se de um eterno retorno. Ou o que os espiritualistas chamariam de lei das afinidades.
Espero estar errado. Marx disse que a história se repete, primeiro acontece como tragédia, depois como farsa. Se ele tiver razão, daremos risada da comédia de 2014 e seremos capazes de, quem sabe, rindo de nossas desgraças traçarmos novos futuros. Mas se a Psicanálise tiver algo a ver com isso, temo que a nossa tragédia seja repetida, ampliando também a nossa neurose: até quando buscaremos nos tornar o país do futuro?

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