terça-feira, 19 de novembro de 2013

O que Marx diria do Bom Senso F.C. - Parte 2

O controle do Tempo e o jogo

Francisco Rebolo - Futebol (1936)

Quero me dedicar agora a ilustrar o que Marx diria sobre os artifícios em torno do Tempo e o impacto que o controle do tempo tem na nossa percepção do jogo. Ainda no Capítulo 8, dedicado a Jornada de Trabalho, Marx mostra que os capitalistas tentam a qualquer custo criar artifícios para controlar o tempo de trabalho de seus funcionários. Esta percepção é importantíssima, porque ao controlar o tempo, o capitalista exercer o controle sobre a subjetividade do trabalhador. Para muitos filósofos, nos quais se inclui Marx, é o Trabalho um elemento essencial a construção da nossa humanidade. Passamos mais tempo trabalhando que fazendo qualquer outra atividade.
Quando alguém nos faz a pergunta sobre quem somos, normalmente respondemos dizendo o que fazemos enquanto profissionais. Nos confundimos entre o que é ser alguém e a atividade primeira que fazemos no mundo. Para Marx, ao trabalhar, o homem modifica as coisas exteriores e modifica a si próprio. Aqui surge o conceito de Alienação. Ao trabalhar, somos o nosso trabalho, mas se nosso trabalho é repetitivo e extenuante, não faz sentido internamente, entramos em crise, sofremos, procuramos outras coisas para fazer e etc. Há uma relação profunda entre trabalhar e ser alguém. Isso é inegável.
Um ponto dessa ideia que me salta aos olhos é o fato de que cada vez mais somos cobrados pela eficiência no nosso cotidiano. Eficiência é basicamente o quanto ajustamos nossa atividade dentro de um tempo, para extrair dela o máximo (melhores) de resultados possíveis. As consequências dessa cobrança na sociedade atual é que quando estamos fora dos locais de trabalho, nos sentimos perdidos. Não sabemos como usar o tempo e nos sentimos como vagabundos por não sermos naquele momento eficientes. Isso significa que tornamos parte da nossa existência inteira, a parte que deveria se relacionar somente com o mundo do trabalho. Em outras palavras, absorvemos a percepção do Tempo de trabalho (tempo fundamental ao lucro e a produção de Mais-Valor) como o guia de nosso tempo nas demais esferas de atividade.
O que isso tem que ver com o Futebol, me perguntaria entusiasmado um de nossos dois leitores. Ora, assim como nas demais atividades laborais, os jogadores são cobrados dessa mesma eficiência. São cobrados a dar o máximo de suas condições humanas no tempo em que exercem a sua atividade. São levados ao limite da competição. São forçados a explorar o máximo de sua força física e intelectual para conseguir a vitória ou um empate. São instigados a se superar.
O que acontece é que o futebol não é alheio ao mundo. O futebol é parte da sociedade e carrega de modo concentrado os elementos e valores de nosso tempo. A superação não é uma criação do capitalismo, superar-se é uma ideia antiga. Mas o capitalismo se apropria dela e não nos avisa. Projeta este valor modificado para todas as arenas da experiência humana. E o futebol é parte dessas múltiplas experiências. Minha hipótese é que ao cobrar maior eficiência, os investidores querem produzir Valor. Querem que o Tempo do Trabalho seja o máximo possível, seja nos treinos, nos jogos, nas peças publicitárias. Tudo que envolve o jogo deve ser operado de modo a produzir o Máximo de Valor Possível. A consequência é que, de fato, o jogo ficou mais intenso. Jogadores não param. Correm o tempo todo, disputam todas as bolas, dão mais carrinho, voam na nuca de adversários com suas testas, tornam os mais velhos, como Paulo Baier, aberrações.
Antigamente, isso faz parte de minha hipótese nesse texto, o jogo era mais calmo, porque o Capital ainda não atingira o patamar de cobrança subjetiva que tem hoje. Os jogos visavam o lucro, mas um lucro muito menor. Muito menos desenvolvido economicamente. Agora, em tempos de neoliberalismo e de crise econômica, a busca pelo lucro é mais intensa. Os jogadores são vítimas desse processo, ainda que não o saibam, e tornam natural tal cobrança, vendem essa ideia e se impõem condições super-humanas. Talvez por isso morram mais jogadores a cada ano. Talvez por isso a violência dos torcedores aumente. Todos queremos, consciente ou inconscientemente, mais eficiência. E isso exige mais tempo, mais trabalho e mais tensão entre o Capital e o Trabalho.
O que quero chamar a atenção com estes dois textos são duas coisas: o Bom Senso é fruto de um momento histórico em que o Capital se torna mais agressivo em todas as arenas e derrama sua agressividade nas praças esportivas; o Bom Senso é uma organização de classe, ainda que não se reconheça enquanto tal; as mudanças na percepção do jogo e do modo como é aproveitado o tempo nos 90 minutos é fruto do modo como o Tempo é importante estruturalmente para uma sociedade que visa como objetivo primeiro a Reprodução do Dinheiro e não do humano ou de outros valores, ainda que se diga o contrário.

Continuarei frequentando os estádios, apesar destas contradições. O que Marx diria disso, eu não sei, mas ele se pudesse teria escolhido o Manchester para torcer, porque entre economias e política, há de se gastar o meu tempo de ócio como bem entendo, sem eficiências e sem mais valor algum. 

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