Sexta-feira, 06 de Junho de 2014, levantei cedo, arrumei minhas coisas e fui até São Paulo para assistir o amistoso entre Brasil e Sérvia, último antes da realização da Copa do Mundo. Há cinco anos, imaginava que neste momento estaria com meu ingresso na mão, para pelo menos uma das partidas da Copa do Mundo. Mesmo que o jogo não fosse o do Brasil. Entre minhas fantasias e a realidade o que consegui foi isso, um ingresso para ver um amistoso antes da Copa e de algum modo sentir um pouco do clima de futebol. O que não imaginava era ver um amistoso entre Brasil e Brasis. Vamos as explicações.
Espera-se de um estádio de futebol, em momentos como esse, algo de catártico. Uma semana antes da estreia, Brasil sobe as escadas, a camiseta amarela reluzindo nos cinzas do frio paulistano, estádio lotado, gente saindo pelo ladrão. O que ocorreu, no entanto, foi o contrário da empolgação, do samba marcando o ritmo na arquibancada, dos gritos incessantes das torcidas. Ocorreram aplausos. À semelhança de um show em que o artista sobe ao palco. Como num jogo de tênis.
Certo momento, frustrado. Olhei pro lado. Um senhor, gordo, cabelos compridos. Calças e blusas muito bem alinhadas. Típico figurão. Revoltou-se com o foto de muitos estarem em pé na sua frente. E não satisfeito em tonitruar sua voz muda em gestos violentíssimos, pasmém, atirou um copo de plástico. Por sorte não acertou ninguém.
O mesmo senhor gordo, grã-fino de nariz de defunto, começou a vaiar a seleção impaciente. Esperava um espetáculo e o que viu foi o futebol moderno. Força física, aplicação tática, marcação em primeiro lugar. Mas esperava outra coisa. Talvez umas bicicletas, acrobacias ou golaços. Como se mesmo no tempo de Pelé, o jogo fosse apenas um video tape de melhores lances. Acredito, nunca vira um jogo de verdade, em sua frente.
Depois, no intervalo, ouvia uma menina contar animadamente que ela estaria presente em vários jogos. Porque o pai dela trabalhava na Samsung, patrocinadora do Mundial, e ganhara muitas entradas. Contava assim naturalmente, sem perceber contradição alguma. Provavelmente, em suas contas das redes sociais, divulgue textos indignados contra a corrupção e contra a corrupção na Copa. Mas não percebe que aquelas entradas, para jogos que nem irá, e se for não saberá de fato quem está em campo, simbolizam a dificuldade de milhares de fanáticos em adquirir as suas entradas. Fala assim, como se não houvesse nada demais. E vaiava a seleção. Sem entender bem o porquê. Não percebendo que aquelas entradas são fruto da corrupta relação entre a FIFA e as Empresas que a patrocinam.
Depois, no intervalo, ouvia uma menina contar animadamente que ela estaria presente em vários jogos. Porque o pai dela trabalhava na Samsung, patrocinadora do Mundial, e ganhara muitas entradas. Contava assim naturalmente, sem perceber contradição alguma. Provavelmente, em suas contas das redes sociais, divulgue textos indignados contra a corrupção e contra a corrupção na Copa. Mas não percebe que aquelas entradas, para jogos que nem irá, e se for não saberá de fato quem está em campo, simbolizam a dificuldade de milhares de fanáticos em adquirir as suas entradas. Fala assim, como se não houvesse nada demais. E vaiava a seleção. Sem entender bem o porquê. Não percebendo que aquelas entradas são fruto da corrupta relação entre a FIFA e as Empresas que a patrocinam.
Quando as "grã-finas de narinas de cadáver" (Nélson Rodrigues) se manifestavam, nas arquibancadas, com seus gritos e uivos, desejava ardentemente que não houvesse Copa. Não eram poucas. E não eram necessariamente mulheres. Explico: Nélson Rodrigues citava em suas crônicas, personagens que compareciam aos jogos festivos, em geral da Seleção, em época de Copa. Eram em geral mulheres, que nada entendiam de futebol e que costumavam fazer peguntas como: Quem é essa tal bola? Eram o símbolo da elite nacional carioca que frequentava o Maracanã para sair nas colunas sociais. Na sexta-feira, essas eram ao menos metade do Morumbi. E como disse, não necessariamente mulheres, mas principalmente grã-finos.
Essas situações me fizeram não querer Copa. Pensar nas famílias desapropriadas em favelas, nas greves pelo país, nos sem-teto. Pensei nos operários que ganham pouco para construir arenas, nas quais nunca verão um jogo. Pensei nos trabalhadores, inocentes em barracos, creditando sua felicidade a um bando de jogadores mimados, europeizados, frescos, narizes de viúva. Comecei a sentir um desejo forte de explodir aquilo tudo. De ir pra rua, de gritar Fora Fifa, Fora todo mundo, que agora vai ser do nosso jeito.
No entanto, olhei pro lado e vi um pai. Um rapaz de não mais que 30 anos e um filho, de mais ou menos 4. O Fred acabara de fazer o gol da vitória, um belissimo gol, logo após ser vaiado. O garota pulava, chorava e se ria. Como se a Copa estivesse acabando e não em vésperas de começar. Como num gol do título. E abraçava seu pai, talvez num momento que será determinante em sua vida, em quem será, em como verá o mundo. Lembrei-me das vezes em que eu, apaixonado, fiz o mesmo com meu pai. Ou com algum desconhecido que era ou será um dia pai. E me acalmei. Como se o gol tirasse de mim toda a crítica necessária e me enchesse de felicidade e magia. Balançasse o capim no fundo da poesia da minha vida.
No entanto, olhei pro lado e vi um pai. Um rapaz de não mais que 30 anos e um filho, de mais ou menos 4. O Fred acabara de fazer o gol da vitória, um belissimo gol, logo após ser vaiado. O garota pulava, chorava e se ria. Como se a Copa estivesse acabando e não em vésperas de começar. Como num gol do título. E abraçava seu pai, talvez num momento que será determinante em sua vida, em quem será, em como verá o mundo. Lembrei-me das vezes em que eu, apaixonado, fiz o mesmo com meu pai. Ou com algum desconhecido que era ou será um dia pai. E me acalmei. Como se o gol tirasse de mim toda a crítica necessária e me enchesse de felicidade e magia. Balançasse o capim no fundo da poesia da minha vida.
O que esse jogo entre Brasil e Brasis me causou é de uma profunda contradição. Torço pela mesma seleção de brasileiros que nada tem a ver comigo e com os meus. Há momentos em que não quero torcer. Se o legado dessa Copa for assistir jogos sentados. Vaiar meu time do coração (como já vejo nos estádios, infelizmente) durante a partida. Se nosso modo de ser e de torcer for agora substituído pelo jeito empolado das grã-finas de nariz de defunto, sinto que o meu Brasil, já perdeu para aquele outro no qual não me vejo.
O mais triste é saber que o Brasil popular, das ruas e das arquibancadas de cimento, que vê os jogos em pé e que sabe o momento de xingar ou de empurrar o time, este Brasil não tem e nem nunca teve complexo de vira-lata. Nunca torceria contra por achar que Copa muda eleição. Esse Brasil, dito de ignorantes, não estará nos estádios, correndo o risco de ser, a partir de julho, excluído de vez deste espaço tão seu. O Brasil do nariz em pé, da elite branca, da intolerância, esse Brasil ocupará as cadeiras nos jogos. Cantará sorumbaticamente cantos de ninar. Aplaudira e vaiará, como num show. Será a representação de nossa torcida. Esse é o Brasil que estará nos jogos, mas não acredita em vitória. Eles são os vira-latas do tal complexo. Os que arrotam por aí: Só no Brasil isso, Só no Brasil aquilo.
Devemos ir pra rua mesmo. A seleção precisará de barulho. Os doutos juízes e senhores distintos não serão capazes de fazer isso. São muito educados para tal.
O mais triste é saber que o Brasil popular, das ruas e das arquibancadas de cimento, que vê os jogos em pé e que sabe o momento de xingar ou de empurrar o time, este Brasil não tem e nem nunca teve complexo de vira-lata. Nunca torceria contra por achar que Copa muda eleição. Esse Brasil, dito de ignorantes, não estará nos estádios, correndo o risco de ser, a partir de julho, excluído de vez deste espaço tão seu. O Brasil do nariz em pé, da elite branca, da intolerância, esse Brasil ocupará as cadeiras nos jogos. Cantará sorumbaticamente cantos de ninar. Aplaudira e vaiará, como num show. Será a representação de nossa torcida. Esse é o Brasil que estará nos jogos, mas não acredita em vitória. Eles são os vira-latas do tal complexo. Os que arrotam por aí: Só no Brasil isso, Só no Brasil aquilo.
Devemos ir pra rua mesmo. A seleção precisará de barulho. Os doutos juízes e senhores distintos não serão capazes de fazer isso. São muito educados para tal.
Me lembro de quando você, Vitor, em 2012 comentou sobre a ideia de reunir um grupo de amigos para escrever sobre um futebol que não está nos jornais ou na TV. Nas suas palavras, "um futebol escondido". Infelizmente, perdemos o contato, e eu nunca soube que fim levou o tal projeto. Hoje, dois anos depois, quando um amigo me disse ter lido um texto genial num blog chamado "Cantos da Arquibancada" tive certeza de que havia sido levado adiante. Antes mesmo de ver quem era o autor, "Brasil x Brasis" já estava sendo lido com a sua voz genial e mal-humorada de segunda-feira de manhã na minha cabeça.
ResponderExcluirParabéns, meu velho! A você e a todos os escritores do Blog. Muito bom material. Muito boa perspectiva. Sucesso!
Joãozinho, você é muito generoso. Sempre foi. Aquele ano de 2012 me deu esperanças muitas, porque reuniu um time de primeira, em várias das salas. Infelizmente, nem todo ano é a mesma coisa. Você era e é um ser humano para além do óbvio, carregado de bondade e alegria. Seu comentário me fez muito feliz. Aproveite, aproveite as leituras e se quiser escrever, só me avisar. A ideia é a pluralidade de olhares e você como amante do futebol, santista apaixonado, será muito bem vindo. Um grande abraço...
ExcluirEu também pensava a mesma coisa há cinco anos atrás. Ainda me lembro de como ficávamos imaginando como seria o Mundial em 2014 no Brasil. Enfim, chegou, e junto com ele uma complexa confusão em nossa sociedade. Aliás, acredito que a confusão apenas saiu de seu disfarce. Agora, vivemos em um país absolutamente dividido. Dividido, como você mesmo lembrou, em vários países. Penso que quem mais sofre com o atual momento de nosso Brasil somos nós mesmos, que, com nossa preocupação com os arredores, percebemos os comportamentos e as contradições contidas nos gestos das pessoas que se julgam acima da nossa desorganização, corrupção e desigualdades.
ResponderExcluirSatisfação em ler seu texto.
Marcos Reis.
Pois é Marquinhos. Sonho com um novo mundo, você sabe disso. Mas entre esse novo e a realidade, há uma distância gigantesca. Nós ficamos no meio desses extremos, tentando absorver a realidade e traduzi-la em palavras. Um dia, um amigo disse assim: Há os que estão em uma margem do rio, há os que estão na margem oposta, nós estamos na terceira margem. É assim que me sinto e assim que te vejo. Vamos aproveitar a Copa e escrever.
ExcluirAbraços...
Grande Vitão! Falar o que de suas palavras??? Já disse e vou reforçar: você e o Welli são verdadeiros artistas. Possuem uma capacidade ímpar de analisar com profundidade e poesia as mazelas e contradições de nossa sociedade. Espero que leve este projeto para frente. Nós precisamos ouvir pessoas como vocês, pois diante das contingências e incontingências da vida, entramos num “modus operandi” estupido, o qual nos faz esquecer de nossos sonhos e desejos, sejam eles grandes ou pequenos. E assim, acabamos por achar normal a violência, a corrupção, a falta de educação de qualidade, a ausência de uma saúde universal de verdade e com qualidade ou simplesmente - algo que deveria ser pequeno - um brasileiro “médio” assistir uma partida de futebol, da Copa do Mundo, no Brasil!!!
ResponderExcluirAcho que, diante das pancadas tomadas outrora (hoje até digo que estou bem) eu já não esperava conseguir qualquer ingresso, nem mesmo para um jogo do Irã. Era como se, desde o início, uma voz interna já me dissesse que os laços de compadrio da Fifa com Grande Capital, reinariam no dito - país do futebol.
Um grande abraço meu amigo!!!