quarta-feira, 11 de junho de 2014

A Seleção facebook

Amigo, hoje o texto será mais leve na forma, mas mais arisco no conteúdo. Já disse que torcerei pela seleção. Acima de qualquer coisa, está meu amor pelo jogo, pelo futebol, pelo que ocorre nas quatro linhas. Mas não posso aceitar tudo, que aí fica sem graça demais. 
Valesca popozuda diria que é recalque. Vá lá, pode ser, porque não? Quem não tem os seus que tire ou atire a primeira pedra. Mas não dá pra engolir essa simpatia marqueteira dos jogadores da seleção. É sorridente demais, é alegre demais, parece foto de perfil de facebook, todo mundo fodido e todo mundo sorrindo. Há de se ter um pouco de mau humor nisso tudo, uma pitada de raiva, um pouco de indignação. 
Esse bom humor demais não me agrada. Se perder ele cai por terra rapidinho e é capaz dessa Copa nem acabar. Como diria um amigo meu: Vai pensando que tá mamão, vai!. 
Nos tempos antigos, não tinha essa de marketing, assessor de imprensa e os caraio. Era ali, no frente a frente. Sem proteção e sem falsas imagens. É muita exposição e muito mais do mesmo. São sempre os mesmos jogadores, falando as mesmas coisas, com as mesmas perguntas. 
Tá certo, um Romário as vezes tumultuava o ambiente, um Edmundo era um problema, um Viola dava trabalho dentro e fora de campo. Mas agora todo mundo quer ser Ronaldo Fenômeno. É a Luciano Huckização do futebol. Todo mundo engomado e com cara de bom moço. 
O problema, meninos, meninas e amigos leitores, é que essa imagenzinha não se sustenta ao primeiro tropeço. Vejam só quem é Ronaldo Fenômeno. Veja quem é Luciano Huck. Veja o playboy do Aécio Neves. Todos na aparência bons moços, mas por trás, uma lista de promiscuidades, que só não as conta pra não perder linhas e moedas. 
É preciso mais humanidade. É preciso um pouco de loucura nisso tudo. Não há time campeão sem um, pelo menos um porra loca. Em 58,62 Garrincha, nosso jogador Macunaíma e Nilton Santos. Em 1970, Pelé, com sua cotovelada na semifinal. Em 94 Romário, que quase nem foi pra Copa porque o filhote da ditadura do Parreira não gostava de sua indisciplina. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho. 
Esses dias o Neymar arrumou uma treta em campo e os jornalistas já começaram a dizer que ele perderia a cabeça. Deixa perder. É preciso uma pitada de porra louquice nisso tudo. 
Pela Macunaimização do futebol nacional: menos facebook e mais vida, por favor!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Brasil X Brasis

Sexta-feira, 06 de Junho de 2014, levantei cedo, arrumei minhas coisas e fui até São Paulo para assistir o amistoso entre Brasil e Sérvia, último antes da realização da Copa do Mundo. Há cinco anos, imaginava que neste momento estaria com meu ingresso na mão, para pelo menos uma das partidas da Copa do Mundo. Mesmo que o jogo não fosse o do Brasil. Entre minhas fantasias e a realidade o que consegui foi isso, um ingresso para ver um amistoso antes da Copa e de algum modo sentir um pouco do clima de futebol. O que não imaginava era ver um amistoso entre Brasil e Brasis. Vamos as explicações.
Espera-se de um estádio de futebol, em momentos como esse, algo de catártico. Uma semana antes da estreia, Brasil sobe as escadas, a camiseta amarela reluzindo nos cinzas do frio paulistano, estádio lotado, gente saindo pelo ladrão. O que ocorreu, no entanto, foi o contrário da empolgação, do samba marcando o ritmo na arquibancada, dos gritos incessantes das torcidas. Ocorreram aplausos. À semelhança de um show em que o artista sobe ao palco. Como num jogo de tênis. 
Certo momento, frustrado. Olhei pro lado. Um senhor, gordo, cabelos compridos. Calças e blusas muito bem alinhadas. Típico figurão. Revoltou-se com o foto de muitos estarem em pé na sua frente. E não satisfeito em tonitruar sua voz muda em gestos violentíssimos, pasmém, atirou um copo de plástico. Por sorte não acertou ninguém. 
O mesmo senhor gordo, grã-fino de nariz de defunto, começou a vaiar a seleção impaciente. Esperava um espetáculo e o que viu foi o futebol moderno. Força física, aplicação tática, marcação em primeiro lugar. Mas esperava outra coisa. Talvez umas bicicletas, acrobacias ou golaços. Como se mesmo no tempo de Pelé, o jogo fosse apenas um video tape de melhores lances. Acredito, nunca vira um jogo de verdade, em sua frente.
Depois, no intervalo, ouvia uma menina contar animadamente que ela estaria presente em vários jogos. Porque o pai dela trabalhava na Samsung, patrocinadora do Mundial, e ganhara muitas entradas. Contava assim naturalmente, sem perceber contradição alguma. Provavelmente, em suas contas das redes sociais, divulgue textos indignados contra a corrupção e contra a corrupção na Copa. Mas não percebe que aquelas entradas, para jogos que nem irá, e se for não saberá de fato quem está em campo, simbolizam a dificuldade de milhares de fanáticos em adquirir as suas entradas. Fala assim, como se não houvesse nada demais. E vaiava a seleção. Sem entender bem o porquê. Não percebendo que aquelas entradas são fruto da corrupta relação entre a FIFA e as Empresas que a patrocinam. 
Quando as "grã-finas de narinas de cadáver" (Nélson Rodrigues) se manifestavam, nas arquibancadas, com seus gritos e uivos, desejava ardentemente que não houvesse Copa. Não eram poucas. E não eram necessariamente mulheres. Explico: Nélson Rodrigues citava em suas crônicas, personagens que compareciam aos jogos festivos, em geral da Seleção, em época de Copa. Eram em geral mulheres, que nada entendiam de futebol e que costumavam fazer peguntas como: Quem é essa tal bola? Eram o símbolo da elite nacional carioca que frequentava o Maracanã para sair nas colunas sociais. Na sexta-feira, essas eram ao menos metade do Morumbi. E como disse, não necessariamente mulheres, mas principalmente grã-finos. 
Essas situações me fizeram não querer Copa. Pensar nas famílias desapropriadas em favelas, nas greves pelo país, nos sem-teto. Pensei nos operários que ganham pouco para construir arenas, nas quais nunca verão um jogo. Pensei nos trabalhadores, inocentes em barracos, creditando sua felicidade a um bando de jogadores mimados, europeizados, frescos, narizes de viúva. Comecei a sentir um desejo forte de explodir aquilo tudo. De ir pra rua, de gritar Fora Fifa, Fora todo mundo, que agora vai ser do nosso jeito.
No entanto, olhei pro lado e vi um pai. Um rapaz de não mais que 30 anos e um filho, de mais ou menos 4. O Fred acabara de fazer o gol da vitória, um belissimo gol, logo após ser vaiado. O garota pulava, chorava e se ria. Como se a Copa estivesse acabando e não em vésperas de começar. Como num gol do título. E abraçava seu pai, talvez num momento que será determinante em sua vida, em quem será, em como verá o mundo. Lembrei-me das vezes em que eu, apaixonado, fiz o mesmo com meu pai. Ou com algum desconhecido que era ou será um dia pai. E me acalmei. Como se o gol tirasse de mim toda a crítica necessária e me enchesse de felicidade e magia. Balançasse o capim no fundo da poesia da minha vida. 
O que esse jogo entre Brasil e Brasis me causou é de uma profunda contradição. Torço pela mesma seleção de brasileiros que nada tem a ver comigo e com os meus. Há momentos em que não quero torcer. Se o legado dessa Copa for assistir jogos sentados. Vaiar meu time do coração (como já vejo nos estádios, infelizmente) durante a partida. Se nosso modo de ser e de torcer for agora substituído pelo jeito empolado das grã-finas de nariz de defunto, sinto que o meu Brasil, já perdeu para aquele outro no qual não me vejo.
O mais triste é saber que o Brasil popular, das ruas e das arquibancadas de cimento, que vê os jogos em pé e que sabe o momento de xingar ou de empurrar o time, este Brasil não tem e nem nunca teve complexo de vira-lata. Nunca torceria contra por achar que Copa muda eleição. Esse Brasil, dito de ignorantes, não estará nos estádios, correndo o risco de ser, a partir de julho, excluído de vez deste espaço tão seu. O Brasil do nariz em pé, da elite branca, da intolerância, esse Brasil ocupará as cadeiras nos jogos. Cantará sorumbaticamente cantos de ninar. Aplaudira e vaiará, como num show. Será a representação de nossa torcida. Esse é o Brasil que estará nos jogos, mas não acredita em vitória. Eles são os vira-latas do tal complexo. Os que arrotam por aí: Só no Brasil isso, Só no Brasil aquilo.
Devemos ir pra rua mesmo. A seleção precisará de barulho. Os doutos juízes e senhores distintos não serão capazes de fazer isso. São muito educados para tal. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O que Marx diria do Bom Senso F.C. - Parte 2

O controle do Tempo e o jogo

Francisco Rebolo - Futebol (1936)

Quero me dedicar agora a ilustrar o que Marx diria sobre os artifícios em torno do Tempo e o impacto que o controle do tempo tem na nossa percepção do jogo. Ainda no Capítulo 8, dedicado a Jornada de Trabalho, Marx mostra que os capitalistas tentam a qualquer custo criar artifícios para controlar o tempo de trabalho de seus funcionários. Esta percepção é importantíssima, porque ao controlar o tempo, o capitalista exercer o controle sobre a subjetividade do trabalhador. Para muitos filósofos, nos quais se inclui Marx, é o Trabalho um elemento essencial a construção da nossa humanidade. Passamos mais tempo trabalhando que fazendo qualquer outra atividade.
Quando alguém nos faz a pergunta sobre quem somos, normalmente respondemos dizendo o que fazemos enquanto profissionais. Nos confundimos entre o que é ser alguém e a atividade primeira que fazemos no mundo. Para Marx, ao trabalhar, o homem modifica as coisas exteriores e modifica a si próprio. Aqui surge o conceito de Alienação. Ao trabalhar, somos o nosso trabalho, mas se nosso trabalho é repetitivo e extenuante, não faz sentido internamente, entramos em crise, sofremos, procuramos outras coisas para fazer e etc. Há uma relação profunda entre trabalhar e ser alguém. Isso é inegável.
Um ponto dessa ideia que me salta aos olhos é o fato de que cada vez mais somos cobrados pela eficiência no nosso cotidiano. Eficiência é basicamente o quanto ajustamos nossa atividade dentro de um tempo, para extrair dela o máximo (melhores) de resultados possíveis. As consequências dessa cobrança na sociedade atual é que quando estamos fora dos locais de trabalho, nos sentimos perdidos. Não sabemos como usar o tempo e nos sentimos como vagabundos por não sermos naquele momento eficientes. Isso significa que tornamos parte da nossa existência inteira, a parte que deveria se relacionar somente com o mundo do trabalho. Em outras palavras, absorvemos a percepção do Tempo de trabalho (tempo fundamental ao lucro e a produção de Mais-Valor) como o guia de nosso tempo nas demais esferas de atividade.
O que isso tem que ver com o Futebol, me perguntaria entusiasmado um de nossos dois leitores. Ora, assim como nas demais atividades laborais, os jogadores são cobrados dessa mesma eficiência. São cobrados a dar o máximo de suas condições humanas no tempo em que exercem a sua atividade. São levados ao limite da competição. São forçados a explorar o máximo de sua força física e intelectual para conseguir a vitória ou um empate. São instigados a se superar.
O que acontece é que o futebol não é alheio ao mundo. O futebol é parte da sociedade e carrega de modo concentrado os elementos e valores de nosso tempo. A superação não é uma criação do capitalismo, superar-se é uma ideia antiga. Mas o capitalismo se apropria dela e não nos avisa. Projeta este valor modificado para todas as arenas da experiência humana. E o futebol é parte dessas múltiplas experiências. Minha hipótese é que ao cobrar maior eficiência, os investidores querem produzir Valor. Querem que o Tempo do Trabalho seja o máximo possível, seja nos treinos, nos jogos, nas peças publicitárias. Tudo que envolve o jogo deve ser operado de modo a produzir o Máximo de Valor Possível. A consequência é que, de fato, o jogo ficou mais intenso. Jogadores não param. Correm o tempo todo, disputam todas as bolas, dão mais carrinho, voam na nuca de adversários com suas testas, tornam os mais velhos, como Paulo Baier, aberrações.
Antigamente, isso faz parte de minha hipótese nesse texto, o jogo era mais calmo, porque o Capital ainda não atingira o patamar de cobrança subjetiva que tem hoje. Os jogos visavam o lucro, mas um lucro muito menor. Muito menos desenvolvido economicamente. Agora, em tempos de neoliberalismo e de crise econômica, a busca pelo lucro é mais intensa. Os jogadores são vítimas desse processo, ainda que não o saibam, e tornam natural tal cobrança, vendem essa ideia e se impõem condições super-humanas. Talvez por isso morram mais jogadores a cada ano. Talvez por isso a violência dos torcedores aumente. Todos queremos, consciente ou inconscientemente, mais eficiência. E isso exige mais tempo, mais trabalho e mais tensão entre o Capital e o Trabalho.
O que quero chamar a atenção com estes dois textos são duas coisas: o Bom Senso é fruto de um momento histórico em que o Capital se torna mais agressivo em todas as arenas e derrama sua agressividade nas praças esportivas; o Bom Senso é uma organização de classe, ainda que não se reconheça enquanto tal; as mudanças na percepção do jogo e do modo como é aproveitado o tempo nos 90 minutos é fruto do modo como o Tempo é importante estruturalmente para uma sociedade que visa como objetivo primeiro a Reprodução do Dinheiro e não do humano ou de outros valores, ainda que se diga o contrário.

Continuarei frequentando os estádios, apesar destas contradições. O que Marx diria disso, eu não sei, mas ele se pudesse teria escolhido o Manchester para torcer, porque entre economias e política, há de se gastar o meu tempo de ócio como bem entendo, sem eficiências e sem mais valor algum. 

O que Marx diria do Bom Senso F.C. - Parte 1

Capital e Trabalho: a política dos boleiros


O texto a seguir será um pouco denso, mas fácil de entender. Pretende mais dizer o que eu diria sobre o Bom Senso F.C., a partir de minhas leituras de Marx (o velho barba da Prússia, cada vez mais lido nos tempos de crise), do que propriamente o que Marx diria. Oxalá Marx pudesse dizer algo. Como não pode, me arrisco por seu texto e o trago pra atualidade futeboleira do Brasil, anil e amargo de nossos dias. A primeira parte deste texto se dedicará a argumentar sobre os dados objetivos econômicos e políticos do movimento. A segunda parte, sobre as questões subjetivas, mais precisamente sobre o modo como o político adentra ao campo de jogo e a nossa percepção dele.

Pois bem, para começo de conversa, o Bom Senso F.C. é um movimento de jogadores profissionais e será entendido nestas linhas como um movimento reivindicatório de um grupo de trabalhadores. Não me importarei se ganham mais ou menos que as demais categorias. Isso não importaria, nem a mim e nem a Marx. O que importaria em sua teoria é o fato de que como profissionais (ou trabalhadores, como queiram) eles vendem sua Força de Trabalho no mercado, para "investidores" (capitalistas) em troca de um salário. A Força de Trabalho, para Marx, é nada mais que o tempo que usam para exercerem sua atividade. Não importa se são apertadores de parafusos ou aparadores de bolas com o corpo. Importa que exercem com suas capacidades psíquicas e físicas certa atividade em troca de salário. Os jogadores vendem seu tempo e os "investidores" (os dirigentes, os clubes, as corporações e todos os atores envolvidos nesse processo) lucram com essa troca. Se lucram com essa troca, movimentam um dinheiro que estaria de outro modo parado, e ao movimentarem esse dinheiro, o transformam em Capital. Trata-se portanto de uma relação entre Trabalho de um lado e Capital do outro. 
No capítulo 8 do Capital, Marx escreve um longo capítulo dedicado a Jornada de Trabalho. Para Marx, a relação entre Trabalho e Capital é antagônica e insolúvel. Ao Capital interessa que o Trabalho seja exercido no máximo de horas possíveis, sem que necessariamente se pague por essas horas. Tal fato decorre de sua percepção sobre o modo como o Valor (não confundir com o preço) é constituído na sociedade. Marx percebe que o Valor é produzido pelo Tempo de Trabalho dispendido na produção de uma Mercadoria. E percebe matematicamente (é uma prova, minha gente) que o lucro não é gerado na troca da coisa Mercadoria, mas sim gerado na troca entre a Força de Trabalho e o Salário. É essencial ao Capital extrair o máximo de horas de trabalho, porque sem isso não há ganho, não há retorno do Dinheiro investido. 
Provamos isso quando percebemos que em momentos de crise, as propostas da sociedade quase sempre giram em torno de se ampliar ou flexibilizar as horas de trabalho, mantendo os salários. Mas se isso não for possível legalmente, o Capital encontra artifícios. Por exemplo, se eu sou pago para exercer uma atividade por 8 horas, recebo em meu contrato de trabalho as 8 horas. Essa é uma troca justa. Mas se meu patrão fizer essa troca, ele não AGREGA Valor e apenas empata o jogo do lucro. Para vencê-lo, ele precisa me pagar pelas 8 horas, mas me fazer produzir como se fossem 12 horas. Agregou com isso, 4 horas de trabalho e isso se transforma em Valor, que vira o preço e que o faz lucrar mais. De modo simplificado, é isso que Marx chama de Mais-Valor ou Mais-Valia.
Voltemos aos exemplos: eu trabalho 8 horas. Mas para trabalhar as 12 horas necessárias pro lucro, basta que ele (meu patrão) me mande e-mails e me ligue fora do horário de trabalho. Ele continua pagando 8 horas, mas aumentou minha carga de trabalho. Os profissionais da administração de empresas (não de humanos) gostam de encontrar artifícios como esses e em tempos de Internet é cada vez mais difícil separar o que é o ESPAÇO do trabalho, de outros ESPAÇOS da vida. Como professor, sei muito bem disso, quando corrijo um milhão de provas fora da sala de aula, que é o meu ESPAÇO de trabalho.
Pois bem, voltando ao Bom Senso F.C., os jogadores se reuniram na tentativa de diminuir o tempo trabalhado. Sentem-se exauridos fisicamente, percebem as desigualdades econômicas entre os atletas da Elite e os demais atletas, reivindicam portanto, menos horas trabalhadas e manutenção dos seus ganhos. O que recebem da outra parte? Recebem um Não! Só podem receber um não, porque Marx tinha razão, a relação entre eles é uma relação inconciliável entre Capital e Trabalho e aos “investidores” não interessa a diminuição da Mais-Valia.
Essa é a Antinomia desta relação. Não sei como ela acabará, mas se Marx pudesse lhes dar um conselho, diria, meus amigos, unam-se, os poderosos do futebol tremerão diante de sua união e serão obrigados a recuar. A vitória ou a derrota do movimento dependerá de ter claro que se trata sim de uma questão política e já antiga, ao contrário, do que alguns jogadores disseram, como o goleiro Rogério Ceni, que defendeu não se tratar de movimento político. Ora, Marx sabe que a Economia só abaixa a crista para a Política e é nessa esfera que devem resolver essa contradição.


A segunda parte deste texto tratará do que Marx diria sobre o modo como o TEMPO se relaciona com o jogo dentro das quatro linhas e sobre os artifícios dos donos do jogo para aumentarem os seus lucros. Estas coisas não parecem ter relação, mas estão profundamente relacionadas. 
Um dos protestos do grupo: jovempan.uol.com.br

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Não é fraco, é fraquíssimo (autor santista desconhecido)

Nesse domingo, 03 de novembro de 2013, tive a felicidade de poder assistir ao jogo do grandessíssimo Santos Futebol Clube.
Sol quente. Vila lotada. Ingressos caríssimos (o mais barato 40 reais a inteira). E sono. Muito sono.
Não, o sono não ocorreu na prévia do jogo. Aliás, encontrei torcedores que chutaram (pelo menos os torcedores chutam) placares de torcedores: 4x1; 5x1; 3x1...sempre para o Santos. E esse último placar foi o mais modesto dos que ouvi.
Deixando a cachaça de lado – convenhamos que torcer por um 5x1 contra o Cruzeiro na atual situação alvinegra é no mínimo....cachaça – olhemos o jogo. Melhor, analisemos o Santos.
Não é fraco. É fraquíssimo.
Proponho uma análise mais detalhada...jogador por jogador, cérebro por cérebro.
Aranha: Não é possível um goleiro ser bom se ele tem apelido. Aliás, raros são os exemplos de apelidados que “deram certo”: Pelé, Tostão, Garrincha... Mas nenhum Aranha. Sim, nenhum Aranha. Mas para não parecer implicância apenas, pensemos em suas capacidades: alto, boa envergadura, ótimo alcance de bolas, lançamentos longos e boa saída em cruzamentos. No entanto, insiste em APENAS chutar a bola para o ataque na esperança de que W. José vença no combate corpo-a-corpo com Dedé (especificamente desse jogo contra o Cruzeiro). Difícil é entender por que W. José ganharia de uns dos zagueiros da seleção.
Seguindo o fluxo, W. José: jovem, alto, relativamente forte, chuta bem e sabe fazer o pivô. No entanto, resumiu-se em bolas perdidas para Dedé. Acredito que jogar em cima de Dedé não foi uma boa escolha.
Guardarei as pérolas santistas para o fim dessa crônica futebolesca. Chegaremos lá em breve.
Cicinho: corre, corre, corre e ....corre.
Edu Dracena e Gustavo Henrique: o problema não é a zaga.
Mena: razoável em todos os sentidos, mas ainda assim, no ataque, o vovô Léo é melhor. Pasmem!!!
Cícero: sim, pularemos o gênio Alison. Bem, o Cícero sabe jogar, organiza o meio campo, mas não joga sozinho.
Arouca: nitidamente jogando fora de posição está perdido quanto à sua função na equipe. Corre errado, tanto na defesa quanto no ataque. Marca mal na defesa porque chega cansado. Ataca mal no fronte porque chega cansado.
Montillo: de longe não vale o que ganha, mas – também de longe – não tem um ser pensante ao seu lado.
PRONTO!!! Chegamos aos gênios da bola!!!!
Comecemos com  Everton Costa: péssimo!!! PÉSSIMO! Tem dificuldade no domínio de bola, toca muito mal a bola, cai com facilidade, tem uma visão muito reduzida do jogo, não sabe marcar e não sabe criar jogadas. De duas uma: ou está fora de posição (me pergunto qual seria sua posição????), ou é muito ruim mesmo!!!
Alison: cão de guarda, segurança, Pitt Bull, carniceiro, sarrafeiro, etc etc.. Não! Na verdade (com olhos da arquibancada) é o único que corre no time. Mas sinto que o torcedor se engana com o correr. Ele está sempre cansado, sempre chega atrasado nas jogadas, erra passes de 2 metros, tem domínio de bola negativo, joga de cabeça baixa e, via de regra, marca ninguém.
Acredito que o sistema de jogo implantado (supondo a implantação de algo nesse time) por Claudinei tenha em Alison o jogador que cobre os espaços quando a marcação é feita individualmente. No entanto, o jogador que sobrou (afinal, se Alison sobra no Santos outro deve sobrar no Cruzeiro) foi sempre Dedé. Sim, o mesmo Dedé que não perdeu nenhuma bola no jogo, que “marcou” W. José (acho que ele se marca sozinho ou brigou com a natureza), e que deu lançamentos de Gerson o jogo todo.
Chegamos à cereja no bolo, à bandeira de chegada, à contagem regressiva, ao cigarro depois do prazer: Claudinei de Oliveira.
Durante muito tempo venho defendendo o treinador do Santos. Mas tudo tem limite. É impossível o Santos continuar jogando com medo de ganhar. É impossível o Santos continuar jogando pra perder de pouco ou empatar. É impossível o treinador do Santos não perceber essas simples características dos jogadores citados acima. É impossível que, treinando todo santo dia, não haja uma melhora. É impossível!
Temos um treinador com pouca mobilidade tática – os jogares tem culpa nisso, e muita, pois não conseguem correr e pensar ao mesmo tempo – e que prefere seu esquema “seguro” à chance de dar brilho ao time.
Outrora escrevi sobre os meninos da Vila. Jovens como Gabriel, Victor Andrade, Alan Santos, Gustavo, etc etc. Reitero agora (publicando): se esses meninos sabem jogar – e sabem – “deixem os meninos jogarem, o Iaiá!!”
O time do Santos está como um militar aposentado: usa a farda pra alguém ter respeito, mas ela tá apertada, desbotando, suja e malpassada. As pessoas respeitam o Santos não pelo que ele é, mas pelo que já foi (até um passado bem recente).

O time, o treinador e os jogadores não são fracos, são fraquíssimos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O Imperador e o jornalismo esportivo

Esse post não vai falar do Adriano Imperador. Mas sim, do Imperador, um outro. Com quem o primeiro mantém muita afinidade, diga-se de passagem. Nos antigos impérios, a figura do Imperador é tida como uma espécie de divindade terrena, que tudo pode e tudo consegue. Esta figura foi usada, já no século XX, pela psicanálise freudiana para metaforizar a parte humana destinada aos desejos. O inconsciente humano seria, nessa leitura, carregado de contradições, ora pautada nos desejos internos, que nos impulsionam à vida, ora pautado em impedimentos internos de ordem moral, que se contraporiam ao desejo. Em palavras bem mais simples: todos temos dois lados que se confrontam dentro da gente, o desejo e a moral.
Expandindo um pouco a ideia, para construir minha linha reflexiva. Se sou um jogador de futebol e desejo comer um quilo de picanha antes de um jogo decisivo (êêê Vaixco da Gama), em geral, em minha mente surge uma barreira que me lembra do jogo e me diz que não devo comer. Se não realizo meu desejo posso me frustrar imediatamente, mas se o realizo e meu time perde, vem uma voz sutil e conhecida de todos nós, que nos repete: eu avisei! Essa é (muito) simplificadamente a teoria freudiana. O ser humano está a mercê de seu desejo e de sua moral, que ora levam a satisfação, breve, passageira e ora a culpa. 
Não é fácil reconhecer essa luta interna nossa de cada dia. São poucos os sujeitos que param, em uma sociedade moderna e veloz, para tecer uma análise desse tipo sobre si próprio. Num mundo hedonista como o nosso, queremos tão logo realizar nossos desejos, para em seguida desejar mais e evitarmos eternamente a frustração. Mas todos, reconhecendo esse lado ou não nos deparamos com essas lutas que se tornam mais ou menos agressivas entre a gente. Não seriam, portanto, os jornalistas, os únicos culpados por não a reconhecerem dentro de si. Mas vale o alerta.
Programas e eventos futebolísticos passam por duas situações em que os desejos dos sujeitos se sobressaem: quando analisam o jogo (presente ou passado) ou quando opinam sobre o futuro do jogo ou do time analisado. Análise é um termo grego que significa quebra ou dissolução. Muito usado na ciência, para designar o procedimento de observação das partes de um todo, no intuito de compreende-lo melhor, jogar luz sobre aspectos deste todo, ou mesmo concluir algo sobre ele. Primeiro se analisa, com algum critério e depois se opina sobre o analisado. Como nas transmissões não se vê uma preocupação analítica metodológica, as opiniões são frágeis, equivocadas e superficiais. Ou visto por outro ângulo, a dinâmica do futebol impede que jornalistas façam análises metódicas e profundas sobre quaisquer de suas partes, bem como consigam algum acerto baseado na lógica ou na razão.
Trata-se, portanto, de um tipo de análise que não passa por uma abordagem metodológica, mas sim por critérios intuitivos. Na maior parte dos acertos de jornalistas, sem que percebam, usam suas experiência e suas noções para atingirem seus darem a sentença. Um exemplo disso é o Neto, que conhecendo como poucos a arte de bater na bola, acerta gols de faltas, vez ou outra, de determinados batedores. Sua experiência o leva ao acerto, o que não torna menos válida a análise. No entanto, a questão é que usando a intuição, o desejo e a moral, gritam muito mais, tornamos as palavras menos controláveis e subjetivizamos a análise.
Nisso não incorreria problemas, se os jornalistas assumissem suas parcialidades e em partes, o seus desejos. Nós torcedores confiaríamos menos neles e nos tornaríamos menos irritáveis às suas atuações. Esses dias Casagrande sentenciou que o São Paulo cairia porque tinha um péssimo time. Caio Ribeiro falou o contrário, concordando que o time tricolor era frágil. Freud diria, que diante dessas opiniões, um deseja que o São Paulo seja rebaixado, enquanto o outro que permaneça na primeirona. Desejos, não análises. Em última instância, todos desejam.
Em suma, quando escuto um jornalista falar sobre qualquer assunto, e no nosso caso, o futebol, penso que todos eles desejam que suas análises sejam verdadeiras. No fundo, mesmo em análises complexas e científicas alguma ponta de desejo sempre escapa. Mas na prática, nossos jornalistas nunca assumem o que sentem, senhores e condutores racionais e sóbrios, últimos sábios das quatro linhas. Jornalistas desejam que as torcidas organizadas acabem, desejam que grandes clubes caiam, desejam que seus clubes de coração sempre sejam os campeões, desejam que os árbitros nunca ou sempre errem, desejam o melhor e o pior futebol do mundo, desejam ganhar mais, desejam e reproduzem, seus desejos, quando não os desejos das instituições que pagam seus salários. Mas nunca assumem, nunca assumem nada. A culpa, amigo ao contrário do desejo, é sempre dos outros, nunca deles. Freudianamente falando. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

(RE)AJA CORAÇÃO!!!!

Não está nada fácil torceu para o meu tricolor neste ano de 2013. A maldição da Sulamericana é infalível. Em 2012 a La. U. sofreu da mesma forma, após ser considerada o melhor time do continente ao final de 2011.
A maior dificuldade de acompanhar o São Paulo neste momento é a discrepância apresentada no discurso da mídia. No domingo, na transmissão da partida contra o Grêmio, enquanto o jogo ainda estava 0 x 0, o trio de ferro composto por Cléber Machado, Walter Casagrande e Caio Ribeiro não se continham ao elogiar a dupla de meias sãopaulinos (pareceria que nunca tinham visto um time tocar a bola de pé em pé). Os elogios duraram até o fatídico gol do chileno Vargas. A partir daí, os destaques do jogo foram a apatia, a falta de atitude, a má pontaria... e em segundo plano o goleiro Dida.


Na quarta-feira passada, o time realmente jogou muito mal, apesar do susto que Luís Fabiano deu na torcida santista logo no início do jogo, que obrigou a grande defesa de Aranha, e da incrível chance desperdiçada pelo "glorioso" Douglas ao final do primeiro tempo. O Santos merecia 2 x 1. Os três gols a zero trouxeram um retrato irreal sobre a diferença entre as equipes. Mais irritante que a chance perdida pelo Douglas e que a escalação promovida pelo Muritri Trabalho, foi a postura da infalível equipe de transmissão da Rede Globo. Na concepção dos "profissionais" da comunicação, o São Paulo está uma draga e precisa mudar tudo; diziam que Ganso e Jadson não se encontram em campo, que o time não tem entrosamento e blá... blá... blá... Esses caras são muito chatos e incoerentes, tornam a tristeza pela má fase ainda mais dolorosa. Tiveram a coragem de dizer que Luís Fabiano está em débito com a torcida, sem se dar conta que havia apenas 5 dias que o colocaram no destaque do Globo Esporte por alcançar uma marca histórica contra a Católica pela Sulamericana - 100 gols pelo SPFC no estádio do Morumbi.

Fico refletindo sobre essa postura e acabo isentando os pobres comentaristas da culpa por sua incoerência. A culpa é do futebol. Apesar de injusta, "a bola pune". Estreando no segundo turno com 3 vitórias seguidas e sem tomar gols, o São Paulo se deu mal contra o Goiás, com um gol de costas e improvável do goleiro Rogério. A quebra da sequência havia abalado pouco o time, pois o futebol apresentado contra o Grêmio no domingo foi realmente de encher os olhos, mas as velhas máximas do esporte são incrivelmente pontuais: em um contra-ataque após a braçada de Kléber dentro da área, gol de cabeça do clube gaúcho. Contra o Santos, tudo contra: fora de casa (com forças a favor do alvinegro praiano), campo molhado, zaga improvisada, marcação implacável do meio santista, gols perdidos e... consequentemente... derrota justa.
A bola pune e os comentaristas comentam.